Acontece o seguinte: o moço é neto de um dos homens mais importantes do Brasil. E fez um disco – o primeiro – em que deixa claro a linhagem nobre da qual ascendeu. O avó, Pixinguinha. O neto, Marcelo Vianna. Que se faz girar no Cd-Player com um repertório extraído do espólio musical do grande senhor da música brasileira. O melhor de tudo: o álbum tem o carimbo da gravadora Biscoito Fino – daí dissipam-se quaisquer questionamentos quanto à qualidade do produto e, sobretudo, porque Marcelo Vianna canta bem e teve o privilégio de iniciar discografia própria com um trabalho de peso.
Ok, o disco ganha interesse maior pelo fato de ter apenas músicas de Pixinguinha (1897-1973). Mas seria uma obra imprescindível independente da proximidade co-sanguínea entre cantor e homenageado. Por via de apresentação, o CD de estréia de Marcelo Vianna, foi batizado de ‘‘Teu Nome, Pixinguinha’’ e traz três músicas inéditas, com letras de Paulo César Pinheiro’’ e outras duas faixas não muito conhecidas – ‘‘No Terreiro de Alibibi’’ (Pixinguinha-Gastão Vianna) e a valsa ‘‘Bianca’’, parceria do mestre da MPB com um certo L.Andreoni. Detalhe: letra em espanhol.
São 14 faixas. Entre elas, clássicos como ‘‘Carinhoso’’ , numa roupagem com sutileza jazzística, e ‘‘Rosa’’, num belo arranjo feito apenas com violoncelos de Jaques Morelembaun. Outras participações especiais: o baterista Dom Um Romão, da Velha Guarda da Mangueira, Pedro Luís e A Parede, Rita Ribeiro e João Nogueira (em registro feito em 2000). O disco, a princípio, se inclina mais ao samba, às levadas de samba – embora tenha ‘‘Lamento’’ e ‘‘Carinhoso’’, originalmente chorinhos, e uma toada ‘‘Meu Sabiᒒ (uma das que receberam letras de Paulo César Pinheiro).
Os afro-sambas, ou samba de candomblé e umbanda, se sobressaem pela segurança interpretativa de Marcelo e pelos arranjos que, de cara, conquistam os ouvintes. O destaque fica por conta de ‘‘Yaô’’ (Pixinguinha-Gastão Vianna) gravada primeiramente em 1938 por Patrício Teixeira e imortalizada, em 1968, pela grande Clementina de Jesus. Curiosidade: foi a única música gravada por Pixinguinha como cantor solista.
‘‘O repertório pode ser considerado uma das melhores sínteses já feitas em disco das centenas de música deixadas pelo grande Pixinguinha’’, escreve Sérgio Cabral no encarte. Aliás, é do historiador a participação mais importante no disco – todas as faixas contêm comentários, datas, curiosidades, enfim, breves e precisas informações.
Marcelo Vianna imprimiu frescor nas releituras. No entanto, nada de baticuns plugados. O dueto com Rita Ribeiro, uma cantora com sotaque fortemente pop, só acrescenta vigor à inédita ‘‘Teu Nome’’ – a cantora maranhaense arrasa logo na primeira faixa, um samba delicioso. ‘‘É um disco com releituras contemporâneas, mas ao mesmo tempo encontra-se Pixinguinha em estado puro’’, disse Marcelo Vianna em entrevista à Folha2, por telefone.
Tem razão. ‘‘Teu Nome, Pixinguinha’’ mais que tributo e muito mais que produzido e interpretado pelo neto do homenageado, é um disco tão agradável quanto consistente. Marcelo Vianna abriu sua carreira discográfica com chave de ouro. Um nome próprio que promete zelar pela dignidade da MPB.
Leia entrevista com Marcelo Vianna na página 3.

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