Ranulfo Pedreiro
De Londrina
A coleção do Acervo Funarte da Música Brasileira ganha mais um pacote com quatro CDs, aumentando o cacife de um projeto que, além de lembrar nomes esquecidos pela indústria fonográfica, traz um panorama qualitativo de gêneros diversos. Os lançamentos privilegiam quatro compositores que desbravaram territórios particulares na composição nacional: Flausino Vale, Francisco Mignone, Garoto e Radamés Gnattali.
O projeto é uma parceria entre o Itaú Cultural, Funarte e Atração Fonográfica, com apoio da Lei de Incentivo do Ministério da Cultura. Com cerca de 70 discos lançados, a coleção é um documento sonoro que registra desde as emboladas de Ratinho à obra de Guerra-Peixe, resultando em um verdadeiro apanhado da memória musical do País – tão fragilizada pelos excessos comerciais.
O primeiro disco do pacote é um achado. Reúne 16 valsas para fagote solo compostas por Francisco Mignone. O solista é o francês Noel Devos, autor do texto de abertura, em que garante o ineditismo de um apanhado tão grande de obras para fagote solo compostas por um mesmo autor.
Se a coletânea já desperta curiosidade pelo caráter, o valor aumenta por se tratar de Mignone, um dos principais compositores brasileiros, amigo e colaborador de Mário de Andrade. A obra de Mignone é tão vasta que inclui influências italianas, peças afro-brasileiras, valsas, choros, serestas e trilhas sonoras para cinema. Na década de 60 dedicou-se à música atonal.
Esse currículo proporcionou ao autor um desapego a chavões, fórmulas e estruturas rígidas. Sempre interessado em diversas técnicas de composição, Mignone exercitava a criatividade e fugia do lugar-comum. Essas características estão presentes no disco e são destacadas por Noel Devos, que ressalta as diferenças entre cada valsa.
O segundo lançamento mantém o nível da série. É uma homenagem a Garoto, com piano de Radamés Gnattali e violão de Rafael Rabello. As três personalidades dialogam por faixas como ‘‘Desvairada’’, ‘‘Gente Humilde’’, ‘‘Enigmático’’, ‘‘Nosso Choro’’, ‘‘Duas Contas’’ e ‘‘Concertino para Violão’’ – escrito por Radamés em homenagem ao compositor.
Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto, tocava de tudo. Mas se destacava mesmo no violão. Seu estilo amadureceu em choros suaves, arpejados e técnicos, embora Garoto fosse um músico intuitivo. A interpretação soft e o uso de dissonâncias faz com que seja considerado um dos precursores da bossa nova.
Se o compositor ganhou reconhecimento internacional, os intérpretes não ficam atrás. Radamés Gnattali – também homenageado em um disco deste pacote – regeu Garoto na Orquestra da Rádio Nacional, na década de 40. Rafael Rabello foi considerado uma das principais revelações recentes do violão. Como Garoto – que morreu aos 40 anos de ataque cardíaco – Rabello também faleceu prematuramente, aos 32 anos.
O tributo a Radamés Gnattali, terceiro disco do pacote, reúne nada menos que Tom Jobim, Paulinho da Viola, José Menezes e Chiquinho do Acordeão. Villa-Lobos reduziu os limites entre música popular e erudita no Brasil. Radamés ignorou-os. Não só direcionou a música chamada erudita para o popular, como também percorreu o caminho inverso.
Quando o choro mantinha uma estrutura rígida, alimentada com afinco por nomes importantes como Jacob do Bandolim, Radamés Gnattali alterou o formato regional para aproximar o gênero, aos poucos, da música de câmara. O bandolinista Joel Nascimento, que trabalhou com Radamés no Camerata Carioca, costuma dizer: ‘‘Eu posso morrer feliz, porque já conheci um grande músico.’’
Neste disco, Radamés recebe a homenagem de alguns pupilos. ‘‘Meu Amigo Radamés’’, de Tom Jobim, foi respondida com ‘‘Meu Amigo Tom Jobim’’, de Radamés. Paulinho da Viola fez ‘‘Sarau para Radamés’’ e recebeu como troco ‘‘Obrigado, Paulinho’’. O disco ainda traz ‘‘Capibaribe’’ (Radamés), ‘‘Um Choro para Radamés’’ (Capiba) e ‘‘Quarteto Popular’’ (Radamés).
O autor menos conhecido destes lançamentos é Flausino Rodrigues do Vale, mineiro de Barbacena que atuou em várias orquestras como spalla. Sua obra inclui recursos variados no violino, inclusive ponteios e pizicatos. As melodias de Flausino Vale trazem elementos populares bem caracterizados. Morto em 1954, o músico se mantinha atualizado com a influência de diversas escolas, inclusive contemporâneas, aliando técnica e simplicidade. A interpretação é do polonês Jerzy Milewski, que já possui experiência com autores brasileiros, e o detalhado texto de apresentação das 21 obras que compõem o disco é de Guerra-Peixe. A torcida, agora, é para que o Acervo Funarte continue crescendo. Os discos podem ser adquiridos pelo site www.atracao.com.br.Novos CDs do Acervo Funarte trazem homenagens a Radamés Gnattali, Francisco Mignone, Garoto e Flausino Vale
Arquivo FolhaRadamés Gnattali ganha interpretação de Tom Jobim, Paulinho da Viola, José Menezes e Chiquinho do AcordeãoArquivo FolhaO violonista Garoto recebe homenagem de Radamés Gnattali e Rafael RabelloArquivo FolhaPaulinho da Viola compôs e interpretou ‘‘Sarau para Radamés’’Reprodução

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