Tributo à genialidade
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 14 de dezembro de 1998
André Bernardo Cult Press 
Para o jornalista Renato Sérgio, o escritor Sérgio Porto foi o primeiro artista multimídia que o Brasil já teve. Muito antes da criação do tão propalado termo, o homem que ficou conhecido em todo o País sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta já escrevia colunas de jornal, programas para rádio e tevê, textos para teatro e roteiros de cinema. Workaholic assumido, Sérgio Porto trabalhava 12 horas por dia. A versatilidade era tanta que encorajou Renato a escrever Dupla Exposição, biografia que ressalta a importância de Sérgio na renovação do jornalismo brasileiro, trocando a linguagem rebuscada pelo texto coloquial. Ele costumava dizer que trabalhava tanto que só tinha tempo de levantar os olhos para pôr colírio, recorda.
Apesar da intensa atividade profissional, Sérgio Porto era frequentemente visto em mesas de bar ou na noite carioca. Ex-colega de Sérgio na extinta TV Rio, Renato pretende fazer de Dupla Exposição uma homenagem aos 30 anos da morte de um dos mais irreverentes cronistas brasileiros, que não resistiu a um enfarto no dia 30 de setembro de 1968. Em 15 anos de carreira, Sérgio Porto publicou 12 livros, sendo que sete deles como Stanislaw. Para Renato, o autor de Febeapá - Festival de Besteiras que Assola o País não teve herdeiros à altura no País. Muitos tentaram, mas ninguém conseguiu fazer igual. O Sérgio continua imbatível, acredita.
Como surgiu a idéia de escrever uma biografia sobre o Sérgio Porto?
Renato Sérgio - Essa idéia me persegue há, pelo menos, 30 anos. Sempre tive vontade de apresentar o lirismo do Sérgio Porto e a irreverência do Stanislaw Ponte Preta às novas gerações. Dupla Exposição é um projeto importante, porque ressuscita uma das figuras brasileiras mais controvertidas dos últimos anos. Além disso, vivemos num país que não se lembra mais do que aconteceu há três dias. Imagina há 30 anos...
Como a família reagiu às afirmações de que Sérgio era mulherengo e usava cocaína?
Renato Sérgio - Como todo herdeiro que se preza, a viúva e as três filhas idealizavam muito a figura do Sérgio. Quando leram o livro, não gostaram de certos trechos e pediram para eu fazer algumas alterações. Fiz uma lipoaspiração no que dizia respeito à infidelidade conjugal e ao envolvimento do Sérgio com cocaína nos três últimos anos de vida. Se não tivesse aceito tais exigências, elas poderiam ter vetado o projeto.
Pode-se dizer que a morte prematura de Sérgio Porto teve a ver com sua vida boêmia?
Renato Sérgio - O que aconteceu, na verdade, é que Sérgio Porto era um cabra marcado para morrer. Ele até viveu muito para quem nasceu com um problema congênito no coração. Ainda hoje, não sei se ele se submeteria a um transplante. Ele dizia que não queria saber de viver pela metade, até mesmo porque não iria morrer pela metade...
Qual a lembrança mais forte que você guarda do Sérgio?
Renato Sérgio - Sérgio Porto fazia piadas o tempo todo. Ele vivia alertando os amigos mais velhos para não entrar em cemitérios: Se não, eles não deixam você sair!. Aliás, ele era um gozador inato. Já no colégio, não perdia a oportunidade de colocar apelido nos professores ou fazer imitação de artistas famosos. Quando tinha cinco anos, viu uma mulher de seios enormes amamentando e disse para sua mãe: Aquela lá tem leite condensado!
Há controvérsias sobre a origem do famoso apelido. Você chegou a alguma conclusão?
Renato Sérgio - O apelido de Stanislaw Ponte Preta nasceu de um livro do Oswald de Andrade chamado Serafim Ponte Grande. A adoção deste apelido foi sugestão coletiva da redação do Diário Carioca. Eles precisavam arranjar um pseudônimo para o Sérgio assinar uma coluna que satirizava um certo colunismo social esnobe que se fazia na época.
Como você recebeu a decisão da Record de relançar a obra completa do Stanislaw?
Renato Sérgio - Quando a família do Sérgio começou a implicar com o livro, achei que não era uma atitude muito inteligente. Afinal, o mínimo que podia acontecer era alguma editora relançar a obra completa do Stanislaw. E foi o que aconteceu. Agora, as novas gerações vão ter a oportunidade de conhecer um humor irônico e debochado que nenhum outro brasileiro conseguiu fazer igual.


