Tributo a Betty Carter
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 29 de setembro de 1998
Arnand Rao Especial para a Folha2 
Jazzista, conforme a definição do Aurélio, é um compositor, intérprete, conhecedor e ou grande admirador de jazz. Portanto, considero a mim e a você leitor, jazzistas, trazendo neste artigo de opinião, um Tributo a Betty Carter, cuja morte, em alguns jornais brasileiros, saiu apenas no obituário, em outros nem foi citada, e em poucos, preencheu a pauta com dignidade, através de matérias informativas que a reconheceram como a última grande diva e cantora deste gênero incomensurável da música, que é o jazz.
Rainha do improviso, da arritmia, da quebra singular da linha melódica, tem como grandes trabalhos de sua discografia os discos intitulados: a) Hamp: The Legendary Decca Recordings of Lionel Hampton (1996, Decca); b) Finally (1969, Roulette); c) Now Its My Turn (Roulette); d) Round Midnight (1962, Roulette); e) Social Call (1980, CBS); f) Whatever Happent to Love? (1979, Bet-Car); g) Betty Carter (1975, Bet-Car); h) Betty Carter Album (1976, Bet-Car) e; i) Duets (com Carmem McRae) (1988, Verve).
O primeiro contacto que tive com Betty foi há 15 anos quando me casei com Mary Darlene, arquiteta e ouvinte distante de jazz. Dificilmente, Mary admirava seus improvisos, sua linha melódica, e pelo recém-casamento, mesmo sabendo que eu era um pescador de sons, estranhava a minha absorta e absoluta admiração por Betty. Assisti-a, via vídeo, no Programa Nota Jazz e senti, que sendo músico, ligado a Hermeto Paschoal, tinha descoberto o verdadeiro canto jazzístico.
Recentemente, num show realizado na Sala Villa-Lobos em Brasília, tive chance de assisti-la pessoalmente. A imagem perpetuada em minha mente era a de Betty, jovem e magra, como no vídeo há quinze anos atrás, ou nas fotos recentes, divulgando sua morte. Não! Adentra o palco, uma senhora robusta e idosa, que me assusta. Fico por alguns minutos estarrecido, mas logo ela começa a cantar. Faz tempo, não sentia tão plenamente um show. Talvez, o mesmo sentimento, norteou o show de Pat Metheny. Ao cantar, Betty comove a platéia, contagiando os mais desavisados, e livre, segura dos seus atos, ao final de uma música tira os sapatos, comprados para obedecer o conceito social da beleza, mas que para ela, eram símbolos de resistência à liberdade. Como Cinderela, sem sapatos, sentindo a fundo o chão brasileiro, deita sobre a sensibilidade dos ouvintes que ao longo do show, choram, riem e vivem uma cantora como poucas, uma navegante das profundas ondas do som. Aqueles que foram porque o namorado ou a namorada eram jazzistas, tornam-se jazzistas, e ela começa a ser aplaudida de pé, uma, duas, três, infinitas vezes, até que no fim, retorna por três vezes e pede ao público para descansar, pois apesar da idade, e da resistência, não possuía a vida eterna.
Hoje, ela possui, e eu, possuo-a na saudade e na poesia. A maior cantora de jazz de todos os tempos, merece e deve ser escutada por você. Lembre-se, que sons novos passarão a compor a sua discoteca, sons vindos da alma. Quem até agora lê este artigo, sabe, que quando escrevemos com sinceridade, sem utilizar a técnica redacional como suporte, passamos a compor a vida de quem nos lê, e é isto que eu quero. Sinta e ouça Betty Carter e depois, deixe-a! Você, com certeza, não será capaz.
Anand Rao é jornalista em Brasília. (e-mail: [email protected])


