São Paulo, 17 (AE) - O duo inglês Orbital foi o grande destaque do lado mais, por assim dizer, popular do Free Jazz Festival. Com um impressionante aparato visual (telões e luzes) que bombardeava a platéia com imagens relacionadas ao consumo ("Pilhas não estão incluídas"), eles reeditaram a boa impressão que o show do Kraftwerk já tinha deixado entre os eletrônicos, em 1998.
Pioneiros da dance music, da house e também do techno, o duo (formado pelos irmãos Phil e Paul Hartnoll) abriu seu show com Way Out e em 12 músicas - uma massa quase indistinta de som - botaram o palco principal do Free Jazz em polvorosa. Usavam óculos de mineradores com lanternas acesas, o que lhes dava um aspecto meio extraterrestre, e sucederam à boa dupla eletrônica americana The Crystal Method, que fez um show OK (são equivalentes ao Chemical Brothers, só que com alguns decibéis a mais). O Crystal Method tocou 9 músicas, abrindo com Trip Like I Do e fechando com o mix Busy Child.
Apesar do calor infernal do palco Main Stage (uns dois ventiladores gigantes poderiam ter amenizado a sauna eletrônica)
o Orbital segurou a onda com um show inesquecível. Explorando ao limite os recursos da música eletrônica, fazem um som cheio de sutilezas (poderiam apenas tirar dali algumas brincadeiras de citações bregas), que funciona como um tecido hipnótico, um mantra futurista. A noite fechou com uma espécie de rave pilotada pelo DJ e tecladista Darren Emerson, do Underworld - e festa é festa, não requer comentários adicionais.
O Free Jazz abriu na sexta-feira, às 22 horas, com a apresentação do pianista Jacky Terrasson, um dos mais interessantes músicos da nova safra do jazz. Seu nome exato é Jacques-Laurent Georges Terrasson, filho de mãe afro-americana e pai alemão. Ele abriu com o Bolero, de Ravel, numa versão ousada: para flauta, gaita, piano, baixo, bateria e teclados. Terrasson é o tipo de músico que conhece a tradição, mas não a considera intocável. Para a platéia, tocou ainda Desafinado, de Tom Jobim (que conhece razoavelmente bem).
Depois dele, apresentou-se o guitarrista americano Marc Ribot, com seu grupo Los Cubanos Postizos. Marc, que é um guitarrista virtuoso, chegou a agradar em alguns momentos, mas a apresentação do seu grupo - cuja proposta parece ser a de eletrificar a música cubana - peca em alguns momentos. Especialmente quando Marc canta refrões ou standards da música do compositor Arsenío Rodríguez, já que é um cantor bem fraco.
A noite "black" do festival, também na sexta à noite, reuniu o rapper MV Bill, o grupo americano The Roots e os cantores Eagle-Eye Cherry e Finley Quaye. MV Bill cantou apenas três músicas, perdendo-se num populismo quase de direita. The Roots, quando deixou de lado uma certa ortodoxia do rap, mostrou que é uma banda de força, de ataque.
Já Eagle-Eye foi a nota de desapontamento. Tem boa voz, carisma, simpatia. Falta um repertório. Ele sentiu que foi superestimado quando comentou: "Parece que foi bom o The Roots". Foi salvo da apatia total pela aparição de Naná Vasconcelos, velho amigo de seu pai, Don Cherry. Naná botou fogo no circo, mas foi só uma música.
Finley Quaye, um Ben Harper baixinho e mais falante, deu mais pique ao fim de noite de sexta. Seu timing de música black - que passa do reggae ao rhytmnblues, do funk ao soul - é perfeito. Quaye é moderno, sem ser pedante. Sabe que deve prestar reverência aos que fizeram aquilo melhor, e muito antes, como James Brown, Marvin Gaye e Bob Marley. Quaye abriu seu show com You Gonna Need My Help e fechou Gone is the Love, embalando o Jockey com 14 canções.
No sábado, a noite foi quente. Entre os brasileiros de som mais pop, o destaque correu por conta de Pedro Luís e A Parede, grupo que começou enfrentando uma certa indiferença da platéia e a conquistou com alguns hits (especialmente com Tudo Vale a Pena
que Fernanda Abreu gravou). Pedro Luís escorrega no ecletismo demasiado: quer ser nordestino atacando um repente, depois que ser da Zona Norte, depois quer ser da Zona Sul e não se decide. No final, atacava um samba na livraria que a organização do Free Jazz montou no espaço Village, de circulação de pessoas.
O fato é que alguns shows pareciam trocados no Free Jazz. Eagle-Eye teve o palco principal, enquanto a banda california Cake, que é uma banda mais conhecida e com inúmeros hits aí nas paradas, ficou no palco New Directions. O grupo liderado por John McCrea, um cantor desleixado que invariavelmente usa um chapeuzinho de pescador fez o show mais procurado do Free Jazz.
A seu favor, anote-se que eles poderiam ter feito (mas não fizeram) uma apresentação só de hits. Tocaram canções de seus três discos, Prolonging the Magic (1998), Mortorcade of Generosity (1994), e Fashion Nugget (1996). Abriram com Sheep Go To Heaven, que não esquentou a platéia. O público só veio mesmo abaixo com a quarta canção, Frank Sinatra, do CD Fashion Nugget.
O Cake é uma banda de som divertido, mas não é exatamente um primor sonoro. Misturam algo de sons mariachi pré-latinos, alguns ecos da folk music e até alguns sons country. Parecem bem mais próximos do country do que do pop, ao qual só chegaram por meio de alguns covers bem-sucedidas, como I Will Survive (ponto alto do show) e Perhaps, Perhaps, Perhaps, versão do clássico.
O carro-chefe do show só veio ao final, a canção Never There, com a qual conquistaram as rádios este ano (do disco Prolonging The Magic). Mas foi ao final, em Solene, que a surpresa mostrou o que é a diferença: entrou no palco um dos ídolos de John McCrea, o cantor e compositor baiano Tom Zé, que fez seu habitual concerto para gargarejo e jornal percussivo. O som parecia adquirir uma nova importância, menos urgente e comercial
mais inventiva.
A 14.ª edição do Free Jazz prossegue na noite de hoje com as apresentações mais jazzísticas da mostra. No palco principal, apresentar-se-iam Joshua Redman, Nicholas Payton e Louie Bellson
cada um com um conjunto. O saxofonista Joshua Redman apresentaria o show Classic American Songs. O trompetista Nicholas Payton fará uma homenagem ao seu conterrâneo Louis Armstrong. E Louis Bellson, a bordo de uma big band, celebra o centenário de nascimento de Duke Ellington. Houve uma baixa no fim de semana na banda de Bellson (o trompetista Clark Terry cancelou sua vinda, por motivos de saúde, sendo substituído por Milt Grayson.
No palco New Directions, a expectativa está em torno da apresentação do guitarrista Jonny Lang, de 18 anos. E o saxofonista Charles Lloyd encerra a maratona, no palco Club, às 23 horas.

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