Tributo à altura de uma grande INTÉRPRETE
PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de junho de 2007
Luiz Fernando Vianna<br> Folhapress 
Discos-tributo, com vários artistas homenageando um, são normalmente marcados pela irregularidade. ''Maysa - Esta Chama que Não Vai Passar'' (gravadora Biscoito Fino), que lembra a cantora morta há 30 anos e que é tema de livros recentes, escapa à regra, por dois motivos: unidade sonora e unidade emocional.
A primeira é garantida por Dino Barioni, responsável por arranjos e instrumentos (violão, bandolim, guitarra etc.) em 18 das 21 faixas. Mesmo nas outras três, o clima de suavidade, com um bom espaço para silêncios, se mantém.
A segunda vem do repertório. Fosse nas músicas que compunha, fosse nas de outros autores, Maysa cantava dores, amores caídos, saudades. Quem quer ter uma visão açucarada da vida deve se manter distante deste CD.
Exceções às lágrimas são ''Nego Malandro de Morro'', raro samba de Maysa e aqui bem regravado por Fernanda Porto, e ''I Love Paris'' (de Cole Porter), do repertório internacional da cantora e um tanto maltratada pelos exageros de Edson Cordeiro.
Entre os destaques está ''Meu Mundo Caiu'', que cai bem na voz tão dramática quanto equilibrada de Ney Matogrosso. Maria Bethânia recupera ''Quando Chegares'' (Carlos Lyra) com muita ternura, sem qualquer excesso.
A onipresente Zélia Duncan também opta pela economia ao gravar uma das marcas de Maysa, o samba-canção ''Franqueza'' (de Denis Brean/Osvaldo Guilherme), dos versos iniciais ''Você passa por mim e não olha/ Como coisa que eu fosse ninguém''.
O mesmo faz Zeca Baleiro, que não tenta empurrar para ''Por Causa de Você'' (de Tom Jobim/Dolores Duran) nada além da enorme beleza que a canção já tem. Arnaldo Antunes faz a versão mais original do CD, carregando nos graves em ''Até Quem Sabe'' (João Donato/Lysias Enio), acompanhado pelo violão de Chico Salem.
Das músicas marcantes que a homenageada criou, Alcione relembra bem seus tempos de cantora da noite em ''Ouça'', Carlos Navas leva para o blues ''Resposta'', e Cida Moreira revigora ''Adeus'', composição da adolescente Maysa.
Ao lado do acordeom de Dominguinhos, Célia mostra as qualidades da desconhecida ''Nós'' (Maysa/Julio Medaglia). Alaíde Costa pisa em terreno que domina em ''Demais'' (Tom Jobim/Aloysio de Oliveira). E Leila Pinheiro, também ao piano, faz bem em se conter em ''Raízes'' (Denis Brean/Osvaldo Guilherme).
Em ''Bom Dia Tristeza'' (Adoniran Barbosa/Vinicius de Moraes), Beth Carvalho sofre na comparação com a gravação recente de Bethânia. E há quem vá torcer o ouvido para a teatralidade de Cauby Peixoto (''Ne me Quitte Pas''), Bibi Ferreira (''Suas Mãos''), Claudette Soares (''Tema de Simone'') e Cláudya (''Morrer de Amor''). Mas não faltam emoção e sinceridade em suas interpretações. Bem ao estilo de Maysa.


