Claire de Oliveira
France Presse
Um grupo de indígenas brasileiros do Estado amazônico do Acre, na fronteira com o Peru, decidiu gravar um CD e conectar-se com o mundo pela rede Internet de forma ecológica, utilizando energia solar.
‘‘Para nós, é importante que conheçam a cultura dos indígenas ashaninka nas cidades dos brancos’’, afirma o líder do grupo musical e feiticeiro da tribo, Benke Pianko, de 26 anos.
O maestro Jacques Morelebaum dirigirá os 10 indígenas que vão gravar o CD. O título provisório é ‘‘Homabani Ashaninka’’ (Voz dos Ashaninka) e será vendido em espetáculos e via Internet.
‘‘Já conseguimos a metade dos 60 mil dólares necessários para a produção de mil CDs, a criação do site de nossa tribo e a realização de um videoclip e de um documentário’’, assinalou Pianko, que se encontra em Brasília para procurar patrocinadores.
Todos os cantos gravados no CD são utilizados nos rituais sagrados e de guerra ou nas festas tradicionais. São interpretados em arawk, a língua da nação ashaninka, que vive no Brasil há 400 anos.
Os músicos fabricaram eles mesmos seus instrumentos, flautas feitas com folhas de árvore e tambores feitos com peles de animais selvagens, capivaras e macacos, especialmente, assim como um arco de madeira cuja concepção lembra a do violino. É utilizado pelos namorados que cantam ao alvorecer quando a aldeia ainda está adormecida, segundo o ‘‘pag钒 (feiticeiro).
O Governo do Acre e os comerciantes das cidades próximas do povoado dos ashaninka estão dispostos a investir na voz dos indígenas e o projeto foi aprovado também pelo Ministério brasileiro da Cultura.
Os ashaninka, que não têm energia elétrica – nem querem – em sua reserva de Apiwtxa, situada a 900 km de Rio Branco, a capital do Acre, são 450, dos quais somente 20 falam português. E querem conhecer as tecnologias de ponta para saber quais utilizarão para conectar-se à Internet.
No Peru, onde são cerca de 55.000, os ashaninkas já estão na rede e o sonho de Pianko é poder comunicar-se regularmente com eles por correio eletrônico.
Na reserva de Apiwtxa, que se estende sobre 87.000 hectares de selva, os indígenas produzem o que necessitam, inclusive roupas. Ao contrário do restante dos aborígenes do Brasil, os ashaninkas jamais viveram nus. As mulheres dessa tribo aprenderam a tecer com os incas. ‘‘Dos brancos, só compramos sal, óleo e munições’’, assinalou Pianko.
Toda a história da tribo estará à disposição do mundo inteiro na página da Internet que será acessível a partir de 19 de abril próximo, o ‘‘Dia do Índio’’ no Brasil.

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