Trevisan mostra passado de lutas em livro
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 19 de junho de 2000
Agência Folha 
João Silvério Trevisan tem um passado de lutas pela causa homossexual no Brasil, parte delas detalhadas nas páginas de seu dossiê Devassos no Paraíso (Record, R$ 50), lançado originalmente em 1986 com 331 páginas e agora revisto, atualizado e relançado pela Record com 588 páginas profusamente ilustradas.
Tanto a trajetória pessoal como o talento de ficcionista de Trevisan colocam-no em posição privilegiada para levar a bom termo a tarefa a que se propôs em Devassos: um exaustivo levantamento histórico do comportamento homossexual no país.
Mas existe o lado do militante apaixonado, que fez a publicação original inchar desmesuradamente com especulações sociológicas sem método, julgamentos arriscados e batalhas contra moinhos de vento. Esse destempero desequilibra em especial os quatro longos capítulos de introdução às partes essenciais do livro - as narrativas sobre os tais devassos no paraíso, ou seja, os europeus e americanos fascinados com a liberalidade de costumes sexuais nos trópicos, bem como a descrição de sua repressão, pela Inquisição ou pelo regime militar.
O patrulhamento algo fóbico do machismo brasileiro já existia no livro de 86, cujo capítulo dedicado ao teatro, por exemplo, afirma que Oswald de Andrade debochava de homossexuais e que Nelson Rodrigues destilava paranóia homofóbica em suas peças.
De outro lado, apesar de iniciar seu livro com citações de Pier Paolo Pasolini e uma reflexão sobre o homossexual sob controle da mentalidade empresarial, o autor comemora, à pág. 367, a definitiva inserção de homossexuais no mercado, passando a enumerar triunfalmente fenômenos recentes provocados por uma liberalidade estrategicamente ligada à máquina do consumo. Isto quando sua própria compilação já fez ver que os séculos anteriores enrustidos registraram atitudes sexuais que tornam brincadeira inofensiva a cultura homo atual.
Assim, as páginas mais claras e contundentes localizam-se nos capítulos sobre as recuperações históricas. Entre elas, o caso do argentino Tulio Carella, que deu aulas de teatro no Recife por um ano e foi expulso do país em 62.
Admiráveis também são as páginas dedicadas à paixão suicida da paisagista Lota Macedo Soares pela poeta norte-americana Elizabeth Bishop, no Rio; à aventura do ator de cinema Carlo Mossy, que foi animal de estimação do lendário falsário internacional Fernand Legros; ou ao caso secreto do cantor George Michael com um fã brasileiro, morto em 93.
O lançamento de Devassos no Paraíso será dia 24, a partir das 21h, no Museu da Imagem e do Som (av. Europa, 158).


