Dalton Trevisan, o mestre da concisão, abriu de novo sua sacola de crueldades. Depois de publicar ‘‘111 Ais’’, o vampiro de Curitiba retorna às livrarias com ‘‘O Grande Deflorador’’, segundo volume pela coleção L&PM Pockett da editora gaúcha L&PM.
Como de praxe, o autor reitera em 21 contos o universo desolado dos joões-e-marias comuns das ruas. Sexo, solidão, desejo e morte inspiram sua cosmogonia que vem ambientada em sordidez e situações repugnantes. Homens abandonados, mulheres submissas e meninas prostituídas desfilam pelas páginas sem qualquer comiseração.
A ênfase é de um olhar desiludido e trágico sobre o gênero humano, que roça aqui e ali a fronteira do grotesco. Curioso notar a obsessão do contista em descrever a ausência de ‘‘um incisivo superior ’’ em fulana ou o ‘‘canino amarelo’’ de sicrano. O tique é repetido à exaustão.
Mas o que poderia sugerir um detalhe banal, talvez até dispensável pelo rigor narrativo do autor, aparece aqui para amplificar o olhar impiedoso sobre os personagens. A escrita é seca, alheia a divagações ou exercícios de estilo. Dalton Trevisan escreve com a economia máxima das palavras, chegando a aproximar seus contos da síntese dos hai-kais em livros anteriores.
Na nova coletânea, ele não vai ao extremo, mas mantém a avareza de linguagem. O conto mais longo, ‘‘Diálogo entre Sócrates e Alcibíades’’, tem dez páginas (o que, convenhamos, não é nada em se tratando de um livro de bolso). Em ‘‘Querida Amiga’’, o escritor dispõe a miséria conjugal em versos: ‘‘...Hoje estamos separados na mesma casa / Eu num quarto ele noutro / Perdeu toda a honra de homen / E o respeito de pai / Cada vez que falamos é para discutir / Então fiz uma cruz na boca / Lá no corredor um bicho nu pelado / Espumando o dentinho de ouro / Dois inimigos / Sirvo pó de vidro e barata / Na sopa de feijão / O fim de tudo / Quebrou na pia o elefante vermelho / E para beber / Roubou as moedinhas da filha / Vida mais desgraçada / Meu coração dá gritos / Derramo álcool no vestido boto fogo / Pelada me afogo no poço / Chorei a última lágrima / Com dois buracos no rosto / Ele está chegando ouço a chave na porta / Começa tudo de novo’’.
Trevisan repisa temas, parecendo reescrever eternamento o mesmo conto. Mas o que é desabonador em outros, nele apenas reforça a marca de uma obra que se mantém respeitável há quatro décadas.

mockup