Curitiba - A reclusão proposital nunca tirou o mérito de Dalton Trevisan, um dos maiores contistas brasileiros. Pelo contrário, só aumentou a curiosidade a respeito do curitibano que hoje completa 80 anos. A data é simbolismo. ''Ele não envelhece nunca'', considera o também escritor Cristovão Tezza para quem Trevisan é mais do que um contista, é um escritor extraordinário que vem influenciando novas gerações. ''O trabalho dele é de uma atualização constante'', diz. E para escrever uma matéria sobre Dalton Trevisan, é preciso ser periférico. O escritor nunca dá entrevistas. É avesso à imprensa e os poucos amigos que mantém contato com ele, ainda o fazem porque seguem a recomendação de não dar nunca declarações sobre sua vida pessoal.
O início dessa aversão é desconhecido. Conta-se que uma certa estudante de jornalismo teria escrito coisas sobre o contista que ele teria detestado. Mas não se sabe se isso também é história. Sabe-se, porém, que foi dessa solidão proposital que o escritor recebeu o codinome de ''Vampiro de Curitiba'', título de um dos seus livros. Recentemente Dalton foi homeanageado pelo diretor Marcelo Marchioro, que escolheu trechos do livro ''Pico na Veia'' (Editora Record) para encenar a peça que recebeu o mesmo nome. Trevisan acompanhou alguns dos ensaios e também participou da seleção dos mais de 30 contos (tirados de ''Pico na Veia'' e de livros mais antigos) que fazem parte do espetáculo.
Marchioro já tinha encenado ''O Ventre do Minotauro'' também uma adaptação do texto de Trevisan há três anos. O diretor é um dos poucos que recebem autorização e passe livre para adaptar obras de Trevisan. O videomaker Estevão Silvera também integra a restrita lista. Ele já fez dois curtas-metragens baseados em contos do escritor. O primeiro ''Que fim levou o vampiro de Curitiba?'' foi lançado em 1996 e o segundo ''Penélope'' (baseado no conto homônimo) lançado no ano passado.
Silvera agora prepara o curta ''Balada do Vampiro'', o primeiro em película, também baseado na obra de Trevisan. Para o diretor o tema abordado é o que mais atrai nas obras do escritor. ''Ele fala de uma maneira única sobre Curitiba'', diz. Apesar de ser avesso a qualquer contato com a imprensa e com eventuais fãs, Trevisan vai buscar na realidade a sua volta material para sua fantástica literatura. Nos seus contos, as coisas mais banais servem de inspiração e são transformadas em rico material de reflexão social e cultural. Para se ter uma idéia até um sauna que fica perto da sua casa serviu de tema para um dos contos que integram ''Rita, Ritinha, Ritona'', livro recém-lançado pela Record.
Nascido em 14 de junho de 1925, Dalton Jérson Trevisan estudou Direito na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Em suas dezenas de livros publicados, quase todos pela Record, dedicou-se exclusivamente ao conto (só teve um romance publicado: ''A Polaquinha'', também levado ao teatro numa temporada de seis anos), e se transformou no maior mestre brasileiro no gênero. Em 1996, recebeu o Prêmio Ministério da Cultura de Literatura pelo conjunto de sua obra. Em 2003, dividiu com Bernardo Carvalho o maior prêmio literário do país o 1º Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira com o livro ''Pico na Veia''.

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