TRÊS SHOWS DE RAÇA
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 20 de setembro de 2001
lisa Marilia Carneiro <br> De Curitiba 
Três shows hoje comprovam que a música de raiz brasileira - samba, caipira e afro-brasileira - estão reconquistando seu lugar de destaque e acendendo a curiosidade dos jovens e a lembrança dos mais velhos. O sambista carioca Délcio Carvalho, parceiro de Dona Ivone Lara, faz show na Sociedade Urca; o também carioca Grupo Cultural Jongo da Serrinha mostra os ritmos chamados de ''pais do samba'' e; os curitibanos do Ser Tão Brasil homenageiam os grandes mestres da música caipira.
Os curitibanos estão um pouco apreensivos pelo fato de os ingressos estarem esgotados para o show do Ser Tão Brasil no Teatro do Paiol. ''Depois de tantos anos massacrados pela música eletrônica, os jovens estão procurando conhecer a origem da música brasileira e os mais velhos perderam o medo de serem taxados de antiquados. Na verdade, a música de raiz agrada e emociona e por isso está sendo procurada'', reconhece a vocalista do grupo, Mariana Bazzo.
Diferente da música sertaneja, que segundo Mariana é feita para a venda, é tocada com guitarra e gravada em estúdio, a música caipira nunca visa a venda, nasce do coletivo e reflete as condições sociais do homem do campo, sua contextualização histórica e social.
O Ser Tão Brasil pesquisou minuciosamente as composições de Tião Carreiro, Almir Sater, Renato Teixeira, Patativa do Assaré, Belarmino e Gabriela, Pena Branca e Xavantinho, Inesita Barrozo e Inami Custódio Pinto. No repertório do show, o grupo prioriza os paranaenses e destaca a forma simples e a métrica perfeita do nordestino Patativa, que hoje está com 91 anos e ainda vive no sertão. ''Patativa passou fome e mesmo assim tem uma linguagem extremamente brejeira, mas é um personagem ainda desconhecido'', conta a vocalista.
Em Curitiba pela primeira vez, o carioca Délcio Carvalho chegou ontem ansioso por conhecer a cidade e sentir o friozinho de final de inverno. ''Do Sul só conheço Florianópolis. Nem acreditei quando me ligaram para me convidar para o show em Curitiba'', contou em entrevista exclusiva para a Folha.
Délcio tem uma voz mansa, clara, afinadíssima e suave, bem a gosto dos sambistas cariocas. No show de logo mais ele interpreta as músicas do CD ''A Lua e o Conhaque'' e sucessos memoráveis como ''Sonho Meu'' e ''Acreditar'', parcerias com Dona Ivone Lara.
Ao lado de velhos mestres como Cartola, Nelson Cavaquinho, Candeia, Guilherme Brito e Ataulfo Alves, Délcio Carvalho tem suas composições interpretadas por Maria Bethânia, Gal Costa, Clara Nunes, Elza Soares, Alcione, Zeca Pagodinho e Martinho da Vila.
Lançado no ano passado, o CD ''A Lua e o Conhaque'' foi considerado o principal disco de samba de 2000. ''Me considero um dos compositores do núcleo de resistência do samba e agora colhemos os frutos com a volta do samba artesanal, romântico, do coração.'' Tanto é verdade, que o mesmo show tem lotado casas por onde passa. ''O samba fala da nossa cultura, da história do Brasil, e tem ainda a vantagem de enriquecer o conhecimento'', reflete.
No show de hoje, o sambista conta com a colaboração do grupo Dobrando a Esquina, que representou o Brasil em diversos festivais na Europa, levando o nosso melhor samba e choro. O conjunto A Gafieira Curitibana também participa da noite com os músicos Daniel Sá (sax alto/clarinete), Paulo César (trombone) Matoso (sax tenor), Jorge Ortega (bateria/voz), Zezinho do Pandeiro, Henrique da Guitarra e Marlene (voz).
No embalo da sonoridade brasileira, o Projeto Sonora Brasil traz o Grupo Cultural Jongo da Serrinha, do Rio de Janeiro, com apresentações marcadas nos Sesc Curitiba (hoje), Guarapuava (dia 22), Paranavaí (dia 23) e Maringá (dia 24). No repertório estão os vissungos, jongos e lundus, ritmos considerados ''pais do samba'' brasileiro e originários da África.
Criado na favela da Serrinha, o grupo tem como objetivo principal preservar e divulgar a cultura afro-brasileira, valorizando um patrimônio cultural criado com o fim da escravidão, quando os negros migraram para os morros do Rio de Janeiro e perpetuaram suas tradições nas primeiras favelas.
Segundo o maestro Wagner Campos, o vissungo nasceu na zona de garimpo de Minas Gerais, no início do século 19, quando os escravos libertos criaram um tipo especial de canto de trabalho com palavras africanas, mas especificamente em dialeto banto. A palavra vissungo significa fundamento e desta forma, os escravos conseguiam preservar seus costumes, se comunicando sem que os brancos os entendessem.
O jongo ou caxambu chegou ao Brasil com os negros bantus e era cantado usando metáforas que contavam o dia-a-dia de trabalho braçal. Seriam para brincar, saudar ou desafiar outros jongueiros. Os jongueiros tinham o poder de enfeitiçar os outros com as palavras. Com o fim da escravidão, os negros encaminharam-se para os morros do Rio de Janeiro, criando comunidades que dançavam o jongo. Até hoje, o jongo é uma dança respeitada por remeter aos pretos-velhos ancestrais. A dança é de roda e é bailada com roupas comuns e pés descalços.
O lundum foi uma das danças de origem negra mais populares no Brasil no sédulo 18. Foi a primeira forma de batuque africano imitada com sucesso por mestiços e brancos e entrou como uma febre nos salões das casas-grandes, fazendas e na corte.
Sua coreografia é a original do fandango e é composta por vários elementos distintos como as umbigadas das danças negras, as palmas no tempo forte, o estalar de dedos como castanholas e o sapateado com uma mão na testa e outra na cintura. Ao som da viola, rabeca ou flauta, tambores e um coro improvisado o lundum é dançado por um casal num jogo sensual e de conquista.
Show com o sambista Délcio Carvalho e o grupo Dobrando a Esquina, e baile animado pela Gafieira Curitibana, na Sociedade Urca (Rua Alberto Foloni, 420 - Ahú) Reservas: 229-1447), hoje a partir das 22h30. Couvert artístico a R$ 10,00.
Show do Grupo Ser Tão Brasil, hoje às 21 horas, no Teatro do Paiol (Praça Guido Viaro, s/nº - Prado Velho). Informações: 322-1525. Ingressos a R$ 5,00.
Projeto Sonora Brasil, com show do Grupo Cultural Jongo da Serrinha, hoje, às 20 horas, no Salão de Eventos do Sesc Centro (Rua José Loureiro, 578 telefone 233-7422. Dia 22, às 20 horas, no Sesc Guarapuava (Rua Comendador Norberto, 121 telefone 42 623 4263; dia 23, às 20 horas, no Sesc Paranavaí (Rua Pernambuco, 766 telefone 44 423 3132; dia 24, às 20h30, no Sesc Maringá (rua Lauro Eduardo Werneck, 531 telefone 44 262 3232.
Ingressos a R$ 5,00 e R$ 3,00 (comerciários e dependentes)


