São Paulo, 09 (AE) - A Guerra do Golfo, que já rendeu um espetáculo macabro pela televisão - embora próximo da estética do videogame-, agora ganha sua versão cinematográfica. Em ambos os casos, a conclusão possível parece ser a mesma, a de que o homem, afinal, não passa de uma invenção sem futuro. "Três Reis", o filme de David O. Russell, começa com o horror de "Apocalypse Now", passa pelo humor negro de "Mash" e deveria chegar ao vazio existencial de "Além da Linha Vermelha" se Russell não fosse apenas um diretor mediano. "Três Reis" é, portanto, frustrante, se é que a palavra pode ser aplicada a um produto hollywoodiano típico.
A estrutura do filme é um tríptico pouco original que desculpa a onipotência americana quando poderia ser uma investigação sobre os motivos que levaram Bush a encorajar a população civil iraquiana a lutar contra Saddam Hussein, abandonando-a à própria sorte. Russell até esbarra na denúncia do genocídio iraquiano, mostrando o massacre da população civil e a tortura aos rebeldes, mas o que está em jogo é a fortuna acumulada do ditador com os saques no Kuwait. É atrás dela que os três reis do título correm.
A analogia com os três reis magos revela uma brincadeira de gosto duvidoso. Não há nenhum Baltazar, Melchior ou Gaspar entre os soldados comandados pelo esperto sargento Archie Gates (George Clooney). Eles não levam incenso e mirra ao povo iraquiano. Querem apenas roubar o ouro de Hussein. A pilhagem de Saddam no Kuwait (carros de luxo, celulares e barras de ouro) serviria para esses soldados - que nem mesmo sabiam o que estavam fazendo no Golfo Pérsico - retornassem à vida civil com alguma "lembrança" da guerra.
O ponto de partida seria a história real de um veterano da guerra do Vietnã, o sargento Jim Parker (morto na época em que o filme estava sendo rodado). Decepcionado porque arriscara sua vida numa guerra inútil, Parker também queria levar um souvenir para casa. Ele e mais cinco soldados descobriram um buda de ouro que pesava seis toneladas. Conseguiram um guincho, mas o buda caiu num rio, antecipando outra decepção do sargento americano. Anos depois, na Guerra do Golfo, ele viu civis massacrados pelo próprio exército iraquiano sem que pudesse esboçar um único gesto.
Esse seria o ponto central de "Três Reis" se por trás da câmera estivesse Coppola ou Kubrick. Mas David Russell quer fazer entertainment bélico. Há quem goste (e ria no cinema, o que choca ainda mais). Em seu tríptico, a primeira parte é quase um documentário sobre soldados alienados dançando rock, bebendo e atirando em vacas no deserto do Iraque. Nela, Russel usa o processo bleach bypass, deixando uma camada de prata no negativo para simular um documentário real.
Na segunda, quando os "reis" partem para tomar o ouro de Saddam no deserto, o filme abusa do Ektachrome, acentuando as cores das fotos de família e o clima surrealista criado pela desorientação dos soldados numa terra estranha. Finalmente, na última parte, as cores esquentam para acompanhar a decisão dos inescrupulosos soldados comandados por Clooney. Esquemático e previsível demais, principalmente quando se leva em conta a tradição do faroeste, que abusou da luz do meio-dia (High Noon, por exemplo) para acertos morais. A crise de consciência do sargento não é, porém, parecida com a de Gary Cooper no filme de Fred Zinnemann. Clooney não escolhe. Vira herói à força.
Como sempre, iraquianos (rebeldes ou não) são reduzidos a estereótipos. São bárbaros, ignorantes, escondem mapas do tesouro nos lugares mais imprevisíveis do corpo e, obviamente, só sobrevivem por conta da boa vontade dos militares americanos. Todo mundo já viu essa história antes e o cinema escatológico de Russell não traz novidades do front.