Três notáveis montagens
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quarta-feira, 10 de outubro de 2001
Katia Michelle<br> De Curitiba 
Destacar boas produções teatrais em Curitiba, ao longo desse célere ano, é como buscar agulha em feno. Tarefa difícil, mas nesse segundo semestre pelo menos três espetáculos se destacam. Se não pela qualidade, pela ousadia das montagens. ''Devorateme'', da Cia Senhas de Teatro é uma delas. Apostou numa linguagem que ressalta o trabalho do ator em detrimento de outros elementos cênicos, como o próprio texto. E acertou. Junto a ''Devorateme'', merecem destaques ''As Loucas e os Lazarentos'' e ''...bem pouco durou a eternidade'', essas, bem mais pela proposta do que pela resultado final.
''Devorateme'', dirigido por Sueli Araújo, volta em cartaz na Casa Vermelha, no Largo da Ordem, a partir desta quinta-feira. É um espetáculo econômico, digamos, mas bem longe da palavra ser pejorativa. São apenas três atores, Olga Nenevê, Eduardo Giacomini e Ana Rosa Tezza, que se dividem em diversos personagens dispostos no palco nu. Ao fundo, os músicos Paulo Demarchi e Berchon Dias - nessa temporada, substituído por Alexandre Rogoski- realizam a ótima trilha, composta especiamente para o espetáculo. Os instrumentos, a maioria percussivos, acompanham os movimentos dos atores.
Não se trata de um roteiro específico. O que o espetáculo concebido pela Cia Senhas propõe é um exercício imagético onde o espectador é peça fundamental, pois depende dele interpretar as diversas cenas, quase esquetes, apresentadas. As performances, um jogo lúdico de movimento e troca, tem um fio condutor. Falam da realidade (triste?) que se prova no dia-a-dia. Traz um gosto amargo de quem não pode mudar, só assistir. Crianças na rua, adolescentes crescendo sem amparo, retirantes, embriagados, perdidos, loucos. Enfim, personagens do cotidiano que são interpretados de forma bastante peculiar, mas bem longe de uma ótica panfletária.
E não é apenas essa providencial fuga do universo preconizado, mesmo abordando temas tão delicados, que dá mérito ao espetáculo. ''Devorateme'' consolida o trabalho da Cia Senhas, que desde Alencar (1999) garimpa uma linguagem própria, e dá um certo fôlego às produções paranaenses.
Na mesma trilha, mas não mostrando tantos resultados, está o trabalho da Cia Rua das Flores, em cartaz com o espetáculo ''... e bem pouco durou a eternidade'', no Teatro Cleon Jackes, no Parque São Lourenço. O diretor Pedro Pires ainda oscila entre a dança e o teatro, mas parece não ter descoberto nem uma linguagem nem outra para uma manifestação artística contundente. ''...e bem pouco...'' traz no elenco Clóvis Inocêncio, Gizelle Comunello, Márcio Abreu, Patrícia Reis Braga e Sílvia Patzsch, bons e pouco aproveitados atores.
O cenário e os figurinos, compostos por tecidos que se transformam de coloridos a tonalidades únicas, passeiam pelo óbvio. Destaque para os curiosos e instigantes textos do escritor carioca Vinicius Marques, relatados à exaustão em offs que ignoram a existência dos atores (ou seria ao contrário?).
As produções locais em cartaz oferecem ainda ''As Loucas e os Lazarentos''. Dirigido por Enéas Lour, o espetáculo tem todos os elementos capazes de transformar a peça numa ótima e inesquecível pedida. Mas não é o que ocorre. Abusando de bons recursos, como a música executada ao vivo e a projeção de cenas, os elementos se tornam enfadonhos pela insistência, assim como o espetáculo, com as suas quase infinitas duas horas de duração.
Com a tentativa de se basear na obra de Chico Buarque, ''As Loucas'' traz um elenco afinado e uma direção apurada, mas mostra que isso apenas não basta para dar qualidade ao espetáculo, já que o texto, assinado pelo diretor, esbarra no limite da evidência. De imperdível, a interpretação de Tupaceretan Matheus, como um professor de biologia travesti, Mauro Zanatta, como o prefeito da cidade e Richard Rebelllo, no papel do cego narrador da história.
''Devorateme'', em cartaz na Casa Vermelha, em Curitiba, de quinta a sábado, às 21 horas e domingo às 19 horas, até o dia 18 de novembro. Ingressos a R$ 10,00 e R$ 8,00.
''...e bem pouco durou a eternidade'', no Teatro Cleon Jacques, em Curitiba, até o dia 21 de outubro. Ingressos a R$ 3,00 (quarta e quinta), sexta a domingo R$ 10 e R$ 5,00.
''As Loucas e os Lazarentos'', até dia 14 de outubro, no Guairinha, em Curitiba. Ingressos a R$ 15,00 e R$ 8,00.


