Três mulheres, uma pessoa
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de abril de 1999
Érika Pelegrino 
Em 1990, Silmara de Oliveira Fernandes reuniu-se com três atrizes para montar o poema dramático O Marinheiro, de Fernando Pessoa. Em apenas um mês de ensaio o trabalho foi interrompido, cada uma foi buscar seu próprio rumo. Oito anos depois, Silmara se depara novamente com o texto do escritor português. Avessa a grupos, ela escolheu outras três atrizes para finalmente montar O Marinheiro.
Fábia Machado, Priscilla Bergamasco e Simone Andrade são dissidentes de grupos teatrais de Londrina e formaram o Cia. Ex-Votos, com direção de Silmara Fernandes, apenas para a montagem deste espetáculo. Foram dois meses de trabalho e hoje elas estréiam no Sesc de São José do Rio Preto (SP).
O espetáculo, ou melhor o poema, como prefere a diretora, que diz não gostar de teatro, é uma adaptação livre de Silmara do texto de Fernando Pessoa. Ela explica que inseriu textos de sua própria autoria e outros elementos da obra de Fernando Pessoa devido à dificuldade de se trabalhar com o poema.
O próprio poeta definiu O Marinheiro como um drama estático em um quadro, o que dificultava muito o trabalho, afirma. Uma preocupação de Silmara era fazer um trabalho universal e clássico, uma busca da escritora e dramaturga em todos os seus trabalhos. Para isto ela reuniu em torno da montagem profissionais de diversos países ou mesmo do Brasil, mas que estão em contato com a cultura de um outro país.
É o caso do artista plástico Laércio Redondo, que fez o cenário enquanto estava na Suécia. A trilha sonora composta por J.C. Bach e F. Kreisler é interpretada por Angiolina Sensale e Milton Masciardri, da Itália. O universal é uma característica que Silmara empresta para o espetáculo também através de signos que vai buscar nas culturas de outros países em tempos distantes.
O espetáculo tem, por exemplo, um móvel que serve tanto de armário quanto de banco e mesa, que é uma referência ao Armário das Maravilhas, que segundo Silmara, era utilizado na Alemanha do século XV para guardar objetos belos.
Com uma linguagem contemporânea que lança mão de recursos de artes cênicas e plásticas, a adaptação de O Marinheiro traz três irmãs que enquanto velam uma quarta pessoa começam a relembrar suas vidas, vasculhar sentimentos, sensações, angústias, sonhos. Mergulham em suas almas.
Sem sair de cena e sem conversarem uma com as outras, como em um monólogo, estas mulheres dão um mergulho na alma humana enquanto falam da vida. São três atrizes em cena, que representam apenas um personagem. As três irmãs são na verdade apenas uma mulher. Multifacetar a personagem, segundo Silmara, é uma forma de trazer ao palco não apenas Fernando Pessoa, mas também todos os seus pseudônimos - Bernardo Soares, Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos.
O espetáculo é visto pelo público através de uma janela que se abre logo no início. Imagens em Super 8 de um baile de debutantes da década de 70 em Paranavaí são projetadas como recurso para trabalhar o aspecto saudosista, o passado. Os portugueses são muito saudosistas. Eles têm um trabalho poético muito ligado ao passado, explica Silmara Fernandes.
O Marinheiro poderá ser visto pelo público londrinense no dia 30 de abril no Núcleo I, às 23 horas, dentro da 32ª Mostra Regional/Nacional e Universitária do Filo - Festival de Teatro de Londrina.


