Três mostras ocupam novo espaço da Pinacoteca no Ibirapuera
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segunda-feira, 06 de dezembro de 1999
Por Ana Weiss, especial para a AE 
São Paulo, 06 (AE) - A Pinacoteca do Estado fecha a programação do ano com um conjunto de grandes exposições, como é de costume. Mas, desta vez, as mostras de encerramento, que serão abertas amanhã (07) para convidados e quarta-feira para o público, ocupam não o edifício da Praça da Luz, reformado por Paulo Mendes da Rocha, mas um prédio de cimento e vidro projetado por Oscar Niemeyer. O Pavilhão Manuel da Nóbrega, que volta a funcionar como espaço expositivo, é a partir deste mês o novo braço da Pinacoteca no Parque do Ibirapuera e recebe as mostras até o dia 9 de janeiro.
Serão expostos uma grande retrospectiva do português Joaquim Tenreiro, a peças novas e de madeira do carioca Fernando Bento e a criações em suportes diferentes dos espanhóis Uiso Alemany, José Maria Yturralde, Vicente Peris e Ramón de Soto. Elas são divididas em três módulos: "O Mestre da Madeira, "Mobília" e "Arte Valenciana no Brasil".
Na avaliação de Emanuel Araújo, diretor da Pinacoteca e organizador das mostras, cada uma delas apresenta questões distintas. Cada uma à sua maneira estabelece alguma relação com a arquitetura do pavilhão, projetado para receber mostras de arte.
A mostra do português de Serra da Estrela e radicado no Brasil, Joaquim Tenreiro, reúne mais de cem obras, entre esculturas, pinturas (sua preferência), relevos, desenhos e móveis (que o fizeram conhecido). Na visão do organizador, as peças estabelecem um diálogo temporal com a arquitetura da nova sede. "Essa conversa entre o trabalho de Tenreiro e o desenho no espaço de Niemeyer remete aos anos 50, idéia que foi reforçada pela montagem cenográfica da exposição." Emanuel refere-se a criações daquela década, como o óleo sobre tela "Casario", de 1950. Mas também aos trabalhos em design de móveis do artista, como a Cadeira de Três Pés", de 1947, objeto em imbuia, pau-marfim, jacarandá e mogno, que traduz as linhas simples e circulares que marcaram a criação do mobiliário nas duas décadas seguintes, período em que o filho de artesão passou a dedicar-se mais à criação artística em ateliê.
Essa passagem está narrada na exposição principalmente pelos relevos em madeira, uma marca de Tenreiro do início da década de 70. Nessas obras, ligadas ao concretismo, pode-se notar o pensamento construtivo e geométrico da produção do design, mas livre da função utilitária. "Homo", relevo em madeira pintado de preto-e-branco, de 1970, e "Vermelho, criação da mesma época, representam essa passagem na qual a arte se dissocia do design na trajetória de Tenreiro.
Apesar da tentação em reunir as exposições sob a temática da madeira, material predominante nos dois recortes mais expressivos do conjunto, a de Tenreiro e a de Bento, Araújo afirma que o que une as exposições é a função de reativar um espaço destinado à arte. Assim, apesar de algumas coincidências entre as obras do português e do carioca Fernando Bento - o material e a herança paterna do artesanato, além da expressão por meio de objetos cotidianos -, as exposições têm montagens autônomas.
Herança - Mas apesar de Fernando Bento explicar seus trabalhos como simples herança inconsciente do trabalho do pai, um construtor de barcos, o crítico do Estado Antônio Gonçalves Filho, que assina o catálogo da mostra de quatro peças, esclarece o profundo questionamento historiográfico por trás da pretensa ingenuidade do artista.
Na criação A Cozinha", um compartimento que Bento explica como referência à vida à beira-mar, o jornalista identifica a presença de citações da história da arte (como o "Boi", de Rembrandt, e "As Facas", de Richard Diebencorn, estampados em gavetas), como referência à possibilidade da criação artística autêntica, a partir de uma criação brasileira, estrangulada pela herança efêmera da improvisação. Essa "cultura da gambiarra", analisa o crítico, é rerpesentada pelo compensado naval que preenche o miolo das quatro peças, recobertas por madeira nobre.
"Arte Valenciana no Brasil, fruto da parceria entre a Pinacoteca e o Consórcio de Museus Valencianos, reúne a pintura-escultura de Alemany, a arte geométrica de Yturralde, a uma grande instalação de Peris e "uma reflexão sobre o silêncio" de Soto. Em comum, as obras têm uma espécie de vocação tridimensional em pesquisar o espaço, seja pelas formas, pelas linhas ou pelas cores. Mais uma "conversa" entre exposição e edifício. Serviço - Projeto Pinacoteca no Parque. De terça a domingo, das 10 às 18 horas. R$ 2,00 (grátis às quintas e para menores de 7 e maiores de 65 anos). Pavilhão das Artes Manuel da Nóbrega - Parque do Ibirapuera. Avenida Pedro álvares Cabral, s/n.º. Portão 10. tel. 5082-1485. Até 9/1.


