Estamos no Carnaval, período do qual sobram lembranças geralmente boas e alguns 'micos' que fazem parte da história. Estamos no Carnaval e lembro-me da amiga que foi sambar de tênis, o mais velho possível, porque a mãe dizia que calçados novos estragariam no empurra-empurra, sem resistir aos pisões na hora da folia. O tênis era tão velho que a sola descolou no meio da festa, mas a diversão era tanta que a moça continuou sambando só com a 'carcaça' que sobrou. Amigos da brincadeira, dizíamos que seu pé estava fantasiado de "carro do ferro-velho", do qual só restou a lataria.

Imagem ilustrativa da imagem Três 'micos' de Carnaval
| Foto: Marco Jacobsen



Estamos no Carnaval. E lembro-me de um porre de licor de menta, a pior bebida do mundo, mas que na adolescência nos atrai pela cor, aquele verde intenso que hoje reconheço como prenúncio de ressaca. Bebi tanto, para meu tamanho, que na madrugada já não sabia o próprio nome. E, ao amanhecer, fomos levar de carro um amigo até a cidade vizinha, onde meu 'mico' seria completo. Ao entrar na casa do moço, junto com a turma que mais parecia um bloco de esfarrapados, sentei-me numa cadeira e quando a mãe do amigo estendeu a mão para me cumprimentar, desequilibrei e caí para trás, de pernas pro ar. Vexame total, mas a dona da casa, simpática, achou graça e disse que nunca tinha visto uma apresentação tão original, coisa de cinema, e eu ali, tentando endireitar o corpo. Culpa do licor de menta que nunca mais pus na boca e do qual tenho pavor. Até o cheiro me lembra aquele 'mico' ingrato.

Estamos no Carnaval. E me lembro do Bloco do Pirulito, criado por rapazes de Londrina que hoje formam um time de setentões simpáticos. Eles saiam todos os anos vestidos de mulher, umas belezuras com as saias das namoradas e os sutiãs das mães, já que o diâmetro do peito dos marmanjos sempre foi desenvolvido. O Bloco do Pirulito era um acinte, o objetivo era provocar e, claro, se divertir. Num Carnaval, a polícia apareceu para dar um flagrante naquela turma travestida e, sem titubear, eles arrancaram as calças, ou melhor, as saias, na avenida e se viraram de costas para os policiais. Nunca vou me esquecer do farol do camburão iluminando os traseiros: primeiro um, depois dois, no fim, seis ou sete, porque eles eram solidários dentro e fora da folia. A irreverência era parte do pacto do bloco que tinha um escritor famoso e um ator de teatro - meus amigos há décadas - um jornalista e outros dos quais não me lembro a profissão. Detalhe: na época, eram todos considerados comunistas, mas tinham aquela irreverência anárquica de quem desafia o sistema, sobretudo no Carnaval, época de por os bichos e até o traseiro pra fora. Afinal, nem só de nu feminino vive a folia e eles já sabiam disso.

Estamos no Carnaval. E me lembro que a festa já foi da nobreza, quando na Europa o Papa II, no século XV, inventou um baile de máscaras para que os ricos não revelassem a libertinagem que era coisa dos pobres que não tinham nome a zelar.

Estamos no Carnaval. E lembro que confete vem da palavra "confetti"" ou confeitos de açúcar que as pessoas atiravam umas nas outras. O confete de papel só surgiu em Paris em 1891. Depois veio a serpentina, em 1892, porque um funcionário dos Correios utilizou as tiras de papel do Código Morse, que estavam em bobinas inutilizáveis, para começar a brincadeira que dura até hoje com o uso de tiras coloridas.

Estamos no Carnaval, na Quarta-Feira de Cinzas tudo volta ao normal. Mas, por enquanto, podemos fazer da irreverência um ato de desafio, protesto ou pura diversão. Carnaval é um período no qual a gente pode ser o que nunca foi - por isso as fantasias - pode até mesmo cair de pernas pro ar ou por o traseiro pra fora, só pela graça de rir depois do próprio 'mico'.

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