Três londrinenses mostram como a música transforma vidas
Eduardo Sahão, “Jacaré” e Dan Barbosa narram caminhos marcados por pesquisa, ancestralidade, identidade e luta, na cena cultural de Londrina
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 20 de novembro de 2025
Eduardo Sahão, “Jacaré” e Dan Barbosa narram caminhos marcados por pesquisa, ancestralidade, identidade e luta, na cena cultural de Londrina
Jessica Mussatti e Letícia Cardoso / estagiárias* 

Celebrado em 22 de novembro, o Dia Internacional do Músico,em homenagem a Santa Cecília, padroeira dos músicos e da música sacra, ganha destaque em Londrina, cidade reconhecida pela diversidade artística e pela cultura pulsante.
Nesse ritmo, três artistas londrinenses compartilham suas trajetórias com a FOLHA: Eduardo Assad Sahão, músico e pesquisador que transita por múltiplos gêneros; Daniel Quaresma, o “Jacaré”, voz marcante do samba soul e da música popular brasileira; e Dan Barbosa, DJ e arte-educador que transforma música e território em instrumentos de resistência.
Eduardo Sahão
O músico, professor e pesquisador Eduardo Assad Sahão, 33 anos, natural de Londrina, cresceu cercado pela música: a bisavó foi pianista concertista, a avó tocava piano e o pai, violão. Incentivado desde cedo, iniciou os estudos de piano aos sete anos e, aos oito, já tocava violão. Sua formação atravessa uma ampla variedade de estilos — do clássico ao rock, jazz, blues, samba e até o metal.

O cenário daqui (de Londrina) é fértil para novos músicos.
Eduardo Assad Sahão - Maestro
Sahão mantém uma sólida carreira acadêmica. Doutorado em cognição musical pela UNESP, integra o grupo de pesquisa COGMUS, que estuda como o cérebro processa e aprende música. Ele investiga questões como comportamento neural, redes neurais e possíveis relações da música com outras áreas do conhecimento.
Ele afirma que nunca conseguiu se limitar a um único gênero. Para ele, a riqueza está em “vestir diferentes sotaques musicais”, transitando entre orquestras, big bands, bandas de rock, trios de blues, teatro musical e até produções de música atonal. Já participou de cursos de regência na Áustria, produziu espetáculos de Elis Regina e assinou trabalhos que unem linguagens distintas.
Conciliando mais de 150 apresentações por ano com a vida de pesquisador, ele afirma que a música ocupa todos os papéis em sua vida: é hobby, profissão e também sua principal fonte de renda. Sahão já se apresentou para públicos que variam de dezenas a mais de 30 mil pessoas e ressalta que a conexão criada com o público é o que realmente define a experiência
Orgulhoso de ter começado em Londrina que define como cidade-pólo musical. "O cenário daqui é fértil para novos músicos. Temos uma agenda cultural pujante, festival de música, de teatro, de dança, somos palco de shows nacionais e internacionais. Temos vários eventos que fazem parte do calendário cultural brasileiro".
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Daniel Quaresma
Conhecido como "jacare" natural de Teresópolis, Rio de Janeiro, residente em Londrina desde de julho de 2007, celebra uma carreira que une arte, identidade e resistência. Pintor, cantor e estudante de Geografia, ele encontrou na música seu caminho ainda em 2010, ao participar do projeto “Banda Grátis”, no Bar do Vitrola, onde sua espontânea participação no palco o levou a formar sua própria banda Black Power Soul é formada por Daniel Quaresma (vocal cover) Daniel Boaro (guitarra), Marco Padovez (bateria), Alessandro Franco (baixo) e Igor Kasuya (sax).
A vida e a arte se misturam. Sofri preconceitos, e esse estilo me dá força.
Daniel Quaresma - Músico
Entre festivais, eventos e casas de show, meses em que a música é sua principal renda e outros em que a pintura assume o protagonismo. Influenciado desde de pequeno em um lar repleto de samba e por experiências em corais de igreja, Jacaré se identificou com o samba soul e o funk nacional, inspirado por Tim Maia, Jorge Ben Jor, Cassiano e Hildon. Ele destaca que esses estilos carregam uma história de resistência que dialoga diretamente com sua vivência como homem preto: “A vida e a arte se misturam. Sofri preconceitos, e esse estilo me dá força”.
Dan Barbosa
Aos 31 anos de idade, o londrinense, homem trans preto, transforma suas vivências em movimento artístico. Estudante de Artes Cênicas na UEL, produtor cultural, DJ, arte-educador e agente territorial de cultura pelo PROMIC, Dan encontrou na música um território de liberdade e afirmação.

Seu primeiro contato veio ainda na infância, na igreja evangélica, onde aos oito anos aprendeu bateria. A partir daí, transitou por grupos, batalhas e coletivos, sempre conectado ao rap gênero que, segundo ele, permitiu se ver e se reconhecer. Em 2015, ao integrar um grupo formado por colegas da UEL, descobriu a música como ferramenta política e de construção de novas narrativas. Influências de Karol Conká, Ellen Oléria, Tássia Reis e Emicida ampliaram sua visão sobre a potência da música preta e das vozes dissidentes.
Entre palcos, escolas e comunidades, sigo construindo um caminho onde música, corpo e território caminham juntos.
Dan Barbosa - DJ e arte-educador
De volta a Londrina após viver em Curitiba, formou-se em discotecagem em vinil na Capão House, com DJ Baqueta, consolidando sua atuação em batalhas, eventos culturais e formações. Também desenvolve oficinas de música, escrita e discotecagem voltadas a jovens de territórios periféricos.
Embora não seja sua principal fonte de renda, Dan afirma que a música é seu território de afeto, profissão e transformação. “Entre palcos, escolas e comunidades, sigo construindo um caminho onde música, corpo e território caminham juntos”, diz.
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*coordenação de Célia Musilli e Patrícia Maria Alves (editoras).

