Três gerações de cantores
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de novembro de 2002
Jackeline Seglin<br> Reportagem Local 
Como será essa família de mais de 40 pessoas que cantam num coral existente há quase quatro décadas? Pois bem, aos poucos os membros da Família Alcântara, participante do 9º Festival Unicanto de Corais de Londrina, vão surgindo um a um no pátio do alojamento para se apresentar e conversar com a reportagem da Folha 2. Primeiro Ivone de Fátima, depois o pequeno Douglas e a mãe Cláudia, e então Pedro Antônio, o maestro. Eles são filhos, netos e bisnetos da matriarca Filomena Tomázia, a Vó Mena, falecida no ano passado aos 94 anos. Três gerações da Família Alcântara.
Pouco depois, mais de 30 pessoas surgem trajadas com as roupas do espetáculo que mostraram durante o Festival Unicanto (evento que termina hoje). Para chegar em Londrina, eles viajaram 21 horas passando por Belo Horizonte e São Paulo para buscar os familiares que já não moram em João Monlevade, cidade no interior de Minas Gerais onde se concentra a maior parte da família.
Descendentes de angolanos que vieram para o Brasil em 1760 para trabalhar nos engenhos, os Alcântara buscaram preservar a tradição de seus antepassados por meio do canto e da dança. ''Naquela época, os negros não podiam conversar, então o modo como o faziam era cantar sempre. Assim eles se comunicavam'', relata Ivone de Fátima, a mais nova dos filhos de Vó Mena. ''Eles buscaram manter essa tradição através da igreja, para poderem ser aceitos pela sociedade. Em louvor a Nossa Senhora do Rosário, eles mostraram a cultura de seu país de origem, fazendo as festas e vestindo-se de reis e príncipes, como na África''.
O pai de Ivone de Fátima, José Domingos Alcântara, era o Rei Perpétuo do Congado nas festas realizadas anualmente em Padre Pinto, distrito de Rio Piracicaba antigo Quilombo de Caxambu. Nesse local os filhos de Vó Mena nasceram e foram criados.
A matriarca foi quem ensinou os primeiros passos na dança e na música para os nove filhos, ao cantarolar cantigas de Congado. Em 1963, o jovem Pedro Antônio, então com 12 anos, teve a idéia de criar o Coral da Família Alcântara. Tudo começou com um núcleo de oito pessoas, que se apresentava nas festas de Congado de Caxambu.
Hoje, 39 anos depois, a família sobe aos palcos sob a regência de Pedro Antônio com sete filhos de Vó Mena, 27 netos e 25 bisnetos. Contagem que às vezes até os mais velhos se confundem. Todos cantam e dançam as tradições: da primogênita Maria Rita, de 67 anos, ao caçulinha Vitor Henrique, de apenas um ano e dois meses. E o ciclo é quase sempre o mesmo. José da Conceição (66), por exemplo, é filho de Vó Mena e pai de Cláudia (38), que por sua vez é mãe de Débora (16), Dayane (11), Layla (7) e Douglas (2). Apesar da pouca idade, o garoto já mostra que quer seu lugar na percussão. Para entrar nesse coral, só nascendo na família ou casando com algum parente essa é a regra.
Anualmente, de maio a dezembro, os Alcântara participam das festas de Congado na região do Médio Piracicaba. ''As festas para Nossa Senhora do Rosário acontecem a cada fim de semana em uma cidade'', conta Maria Rita. O repertório alegre das músicas afro de raíz reflete o jeito animado dessa família mineira.
O Coral da Família Alcântara tem três CDs gravados e dois espetáculos, além de participações em CDs de Chico César e do mineiro Marku Ribas. A primeira vez que o grupo viajou para se apresentar foi em 1979, com destino a Belo Horizonte. Depois foi a vez de conhecer o Rio de Janeiro e se apresentar no Metropolitan, na Sala Cecília Meirelles e no Teatro Municipal; em São Paulo e em Salvador... Em 1999, a família chegou a Portugal e à Itália. O coral é patrocinado pela Fundação Belgo Mineira, Secretaria de Estado da Cultura (MG), Samitri, CAF, Casa de Cultura/Prefeitura de João Monlevade e Prefeitura de Rio Piracicaba.
Mas a vida dos Alcântara não se resume a festas e apresentações do coral. A maioria dos integrantes tem outra ocupação: professor, eletricista, doméstica, aposentado e muitos estudantes. Quase todos são vizinhos em João Monlevade, com exceção de alguns que moram em outras cidades e se encontram para as apresentações do coral.
Uma curiosidade marca a trajetória dessa família. Os Alcântara tiveram de adotaram o sobrenome para manter a tradição. É que nenhum dos filhos de Pedro Domingos e Vó Mena tem no registro de nascimento o Alcântara. ''Naquela época era tudo muito complicado nos cartórios para conseguir registrar os filhos do jeito que os pais queriam. Então, cada um de nós acabou ganhando apenas o nome do santo do dia'', revela Ivone, citando os exemplos de Maria Rita, José da Conceição, Cassimira Tomé... Mas agora os mais novos resgataram o que haviam perdido oficialmente: alguns dos netos e bisnetos foram batizados com o mesmo sobrenome do bisavô, Pedro Alcântara.
A Família Alcântara encerra sua participação no 9º Festival Unicanto de Corais hoje, na missa de Ação de Graças que acontece às 10h30 na Igreja Nossa Senhora de Lourdes, na zona leste de Londrina.


