TRÊS FORMAS DE VER A MÚSICA
Antônio Mariano Júnior
De Londrina
No caso delas, não dá para dissociar deficiência visual, musicalidade e história de vida. Simplesmente não dá. Sabedor disso, o diretor Roberto Berliner está preparando um longa-metragem sobre a sina das irmãs Maria (a Lia), Regina (a Poroca) e Conceição (a Indaiá). Ou simplesmente as Ceguinhas da Paraíba, uma das atrações nacionais da segunda etapa do Panorama Percussivo Mundial, o Percpan, que termina hoje em São Paulo. Elas me cativaram à primeira vista. Principalmente pela sabedoria que tiveram em sobreviver com a ausência de tudo, diz Berliner. O filme não tem previsão de estréia.
A vida nunca deu largos sorrisos a Lia, Poroca e Indaiá. De uma família de cinco irmãs, somente elas nasceram cegas. E pobres. Muito pobres. A fome sempre latente parecia ser uma vocação. Disseram não. Ainda crianças, meninas mesmo, foram às feiras de Campina Grande, cidade natal, pedir ajuda aos outros. Não como pedintes tradicionais. A música cantigas aprendidas com os cantadores da região deu às três irmãs um caminho mais digno que a mendicância pura e simples. A gente não tinha visão e ninguém na família tinha condições de ajudar a gente a viver. Aí, a gente começou a cantar para sobreviver, conta Lia.
Hoje, são conhecidas coquistas do lugar em que moram. Cantam o coco uma espécie de repente acompanhadas pelo ganzá. Nascemos com jeito para cantar, resume Poroca, 56 anos, a mais velha do trio. E nasceram mesmo. No entanto, o que mais comove nessas três mulheres é a simpatia contagiante. Sinal de que as privações e provações não lhes provocaram rancores na alma.
E olha que o trabalho dessas artistas de rua nunca foi fácil. Essa vida tem mais tristeza do que alegria. A vida de pedinte é humilhante. Uns davam com gosto, outros não e outros ainda ficavam mangando da gente, conta Lia, 55, a mais articulada, e a única que foi casada (hoje viúva) ela tem uma filha, Dalva, de 12 anos.
Em 1966 resolveram parar de cantar nas ruas. Começaram a receber ajuda de pessoas amigas para sobreviver. Mas a fama das ceguinhas já havia corrido o trecho. Ao ponto de conseguirem, há coisa de três anos, aposentadoria de R$ 130,00 e também uma casa. Por isso, passaram a se apresentar aqui e ali não como pedintes, mas como artistas. E assim acontece até hoje. Elba Ramalho, conterrânea, foi a primeira cantora de expressão nacional a dar o aval ao trabalho das irmãs. Foi em 92, num show ocorrido em Fagundes, interior paraibano. Mas o que é bom ela não fez que era dar um dinheirinho para a gente, diz com firmeza Poroca, 56 anos.
Outra celebridade que fez questão de conhecer e difundir o trabalho do trio foi Regina Casé, através do extinto Brasil Legal. Porém, foi o cineasta Roberto Berliner o responsável de fato pela valorização do trabalho de Lia, Poroca e Indaiá. Em 97, ele fazia um programa para a série Som da Rua, da TV Cultura. Um produtor paraíbano havia lhe dado um toque sobre as artistas.
Mais que registrar a cantoria das ceguinhas, Berliner fez um documentário de oito minutos com o trio que recebeu o nome de A Pessoa É para o que Nasce. em 98. Arrebatou elogios e muitos prêmios em festivais do Brasil e do exterior. E esse foi o cartão de apresentação que caiu às mãos de Naná Vasconcelos, um dos diretores do Percpan. Resultado: foram convidadas para se apresentar na edição deste ano do Panorama Percussivo Mundial em Salvador e em São Paulo. Eita!! Estou emocionada. Parece que estou dormindo e estou sonhando, disse Poroca, durante a apresentação na capital baiana. O público se rendeu à humildade, simpatia, bom humor e talento.
Não só o público. Gilberto Gil fez questão de escrever uma música inédita (veja a letra nesta página) para elas, a ser incluída no filme de Roberto Berliner. Com tanta admiração vinda de todos os cantos, só falta a realização de um outro grande sonho: a gravação de um disco. Até agora nenhum produtor se prontificou em conceder essa graça às ceguinhas. Ninguém dá valor à cultura nordestina, só querem saber de... Ó, cê me desculpa falar assim mas essa coisa do Tchan é um horror, afirma Poroca. Tem razão, Poroca, tem toda a razão...





