São Paulo, 29 (AE) - O maior bloco temático deste festival é o de filmes que investigam o fenômeno religioso. Compõe-se de três títulos: "Milagre em Juazeiro", de Wolney Oliveira, "São Jerônimo", de Julio Bressane, e "Santo Forte"
de Eduardo Coutinho. Esse segmento poderia ser ainda mais amplo se "Fé", de Ricardo Dias, tivesse sido selecionado. Em todo caso, o documentário de Dias, embora não esteja na mostra competitiva, concorre ao prêmio da Câmara Estadual, no valor de R$ 50 mil porque contém cenas com místicos do Vale do Amanhecer, próximo à capital.
Os três que concorrem aos Candangos apresentam enfoques completamente diferentes entre si. "Milagre em Juazeiro" é um relato de história, sem nenhuma preocupação em fazer uma anatomia do processo religioso. Relembra um antigo acontecimento do Nordeste brasileiro, o mitológico milagre de Juazeiro, no qual uma hóstia teria sangrado na boca de uma beata quando tomava a comunhão com Padre Cícero. A partir de então, criou-se a fama de padre "Ciço" como santo milagreiro. Romarias começaram a acorrer à cidade, que cresceu e tornou-se a terceira em população no Ceará. Cícero virou homem de influência e suas atitudes políticas parecem no mínimo controversas. Mas o filme não toca nisso. Não toma partido, o que o enfraquece um pouco como análise do real.
"Santo Forte" é de outra ordem. É, por um lado, uma quase psicanálise do sentimento religioso de um universo restrito, o da favela Vila Parque da Cidade. Por outro, abre algumas frestas por onde se pode vislumbrar a arquitetura social do País e como ela se articula com a dimensão mística. Um filme, em aparência, simples - afinal baseia-se "apenas" na tomada de depoimentos, que se revela extremamente rico e complexo. Tal como acontece na psicanálise, o documentário extrai a "verdade" de uma situação artificial. Num caso, o divã, com o paciente deitado e o analista em silêncio, fora do seu campo de visão. Noutro, o depoimento prestado à câmera, ao entrevistador, acompanhado de toda a parafernália técnica da gravação.
Dos três, "São Jerônimo" é o mais religioso, no sentido estrito do termo, isto é, de "religare", religar o homem, perdido no abstrato da sua condição material, ao concreto da dimensão mística. Assim pensa quem crê, e assim o longa-metragem de Bressane é conduzido, propondo uma dimensão alterada de tempo e imagem, como se a "ação" se passasse num transe místico. Na verdade, a religiosidade de "São Jerônimo" não está tanto em sua temática mais explícita (porque não é a cinebiografia de uma vida de santo), mas em sua estrutura. Na maneira como é feito, como trabalha com uma percepção alternativa à da pressa, da superficialidade e da boçalidade contemporânea, O filme não deixa de, à sua maneira, ser um filme político e de denúncia.

mockup