São Paulo, 18 (AE) - A Rio Filme/Sagres lança mais três títulos da coleção Nelson Pereira dos Santos: "Mandacaru Vermelho", "El Justicero" e "Jubiabá". São filmes distribuídos por fases distintas da carreira do cineasta. "Mandacaru", no início, terceiro longa-metragem, depois de "Rio 40 Graus" e "Rio Zona Norte". "El Justicero", do período intermediário, flerte com o underground, espécie de prefácio do que viria a seguir: "Fome de Amor", "Azyllo muito Louco", "Como Era Gostoso Meu Francês" e "Quem É Beta?". "Jubiabá" vem na fase madura da carreira, a do diretor consagrado por obras-primas como "Vidas Secas", "Memórias do Cárcere" e "O Amuleto de Ogum".
"Mandacaru Vermelho" sempre é lembrado pelo lado anedótico. O próprio Nelson ri muito quando se lembra do filme. Desde o início dos anos 50, quando nem ainda tinha se encaminhado definitivamente para a carreira cinematográfica, ele desejava adaptar "Vidas Secas", o romance de Graciliano Ramos. Conseguiu os direitos e, em 1959, cineasta a esta altura já batizado pela experiência de dois longas-metragens, seguiu com equipe para Juazeiro, na Bahia, onde iria realizar seu sonho. Acontece que, em pleno semi-árido, começou a chover torrencialmente. Seria impossível filmar a saga triste da seca naquele sertão subitamente revitalizado pelas chuvas.
Nelson então bolou uma história um tanto ingênua, baseada numa lenda (também saída de sua imaginação), segundo a qual depois de uma luta fratricida nascera um mandacaru no local e nunca ninguém mais passara por lá. Como não havia um galã, Nelson virou ator. Um tanto canastrão, como ele mesmo sabe. A história é linear, bem contada, romântica e pincelada por um ou outro momento mais inspirado, dignos do grande cineasta. Livro - "El Justicero" é baseado num livro de João Bethencourt (As Vidas de el Justicero), que conta as aventuras do personagem vivido por Arduíno Colassanti, El Jus, filho de um general e pertencente às classes dominantes. A história é rala e fala de um personagem vagamente positivo. Ironicamente autodenominado "protetor dos fracos e dos oprimidos", vive do seu sucesso com as mulheres. El Jus, como ele se denomina, divide-se entre o amor de beldades como Márcia Rodrigues e Adriana Prieto o que, convenhamos, não é o pior dos destinos.
O filme é um documento de época. Percebe-se, das entrelinhas, emergir o Brasil pós-golpe militar, com a repressão
as coisas ditas pela metade, a brutal separação de classes, o autoritarismo. Há lances de mordacidade e de auto-referência, como a criação do personagem Lenine (Emanuel Cavalcanti) que segue o justiceiro por toda a parte a pretexto de ser seu biógrafo. No entanto, apesar de momentos divertidos, o longa não decola e a impressão geral é de superficialidade, quando não de gratuidade. Não consta que seja das obras favoritas do cineasta. Vale como testemunho de um momento de sua carreira.
"Jubiabá", adaptado do romance de Jorge Amado, foi feito imediatamente depois de "Memórias do Cárcere". Esse dado é importante em sua apreciação, porque "Memórias", um comovente relato da prisão de Graciliano Ramos durante o Estado Novo de Getúlio Vargas, foi um grande sucesso. Tanto de público quanto de crítica. Por isso havia preocupação quanto ao projeto seguinte. Nelson era o único que não se alterava. Dizia que iria fazer um novo filme, com toda a liberade e alegria, sem se incomodar com as comparações com o anterior.
Produzido em parceria com os franceses, "Jubiabá" narra a história de amor entre uma moça loira, Lindinalva (a francesa Françoise Goussard) e o negro Antonio Balduíno (Charles Baiano). Há a questão racial, mas também a política, presente no romance de Amado e bastante diminuída na adaptação de Nelson. Grande Otelo faz o papel-título, um pai-de-santo que se transforma no protetor do órfão Balduíno, Baldo para os íntimos. Nelson quis filmar o livro como uma história de amor mesmo, porque era o que tinha vontade de fazer no momento. Foi criticado por deixar a análise política (centro do filme anterior) em segundo plano, mas tinha todo o direito de dar à sua versão a direção que bem entendesse.
Talvez o erro maior de "Jubiabá" esteja no casting, porque dificilmente uma love story da intensidade proposta se sustenta quando não existe química entre os parceiros que a interpretam. Daí a má recepção crítica do filme, que antecedeu um longo jejum cinematográfico do diretor, só quebrado em 1994, com "A Terceira Margem do Rio". Serviço - Coleção Nelson Pereira dos Santos. "Mandacaru Vermelho", 1961, com Nelson Santos, Miguel Torres, Sonia Pereira. "El Justicero", 1967, com Arduíno Colassanti, Emanuel Cavalcanti. "Jubiabá", 1986, com Grande Otelo, Charles Baiano, Françoise Goussard. RioFilme/Sagres

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