Denis Leão/DivulgaçãoDenise
Stoklos, em
‘‘Desobediência
Civil’’,
cartaz no
GuairãoPara quem viu Denise Stocklos mandando fax para Colombo e jorrando no ar palavras de genocídio, verá outra mulher em ‘‘Desobediência Civil’’. A mesma força, a mesma energia, a mesma Denise. O discurso de agora é poético. Ela fala da vida com ternura, e essa é a tônica do espetáculo, em cartaz hoje e amanhã no Guairão, em Curitiba.
No Teatro do Paiol, outro monólogo. Elias Andreato encena ‘‘Oscar Wilde’’, a peça que encantou e desnorteou as platéias que todas as noites dirigiam-se ao estúdio de Cristina Mutarelli, em São Paulo. Distinto público, que não passava de 16 pessoas a cada apresentação. Lotação completa.
Para se ter idéia da excelência da montagem - que dura 50 minutos - basta dizer que a cantora Maria Bethânia despencou do Rio para São Paulo, num final de semana, especialmente para ver aquilo que tinha agradado tanto a seu amigo, o diretor teatral Fauzy Arap. Ao apagar das luzes fez um único pedido a Arap: tinha que sair e receber o sereno da noite. Ou seja, a alma precisava aquietar-se.
A terceira estréia da noite é uma concepção do diretor Márcio Aurélio sobre um fragmento de Bertolt Brecht, aqui dividido em dois turnos - B6.1 e B6.27. Em outras palavras, seria um estudo sobre o personagem Baal. E quem é Baal? Um cidadão comum, que tanto pode ser um padre como uma prostituta ou um funcionário público.
‘‘Simplicidade, simplicidade, simplicidade’’, diz o filósofo americano Henry David Thoreau, a certa altura de seu manifesto ‘‘Desobediência Civil’’, cujo livro inspirou Denise Stocklos a realizar o espetáculo, que ainda está em sua fase inicial de preparo (para ter uma peça ‘adulta’ são necessários uns três meses de atuação, segundo a artista).
Percebe-se, por essa frase, a intenção de Thoreau, devidamente colocada no palco. ‘‘Eu quero isso’’, afirmou Denise sobre a montagem - despir-se ao máximo das convenções teatrais e chegar ao essencial. Um desafio como se derrubasse todas as máscaras, e ao final ficasse somente ela e a poesia do texto, mais nada.
Enquanto vai burilando ‘‘Desobediência Civil’’ - a estréia foi em Irati, a cidade natal que Denise carrega para todos os lugares onde pisa, citando com uma paixão sempre renovada -, um novo projeto ganha corpo. Este ano ela completa três décadas de vida artística e pretende correr o Brasil com seis solos: ‘‘Um Fax para Colombo’’, ‘‘Mary Stuart’’, ‘‘Casa’’, ‘‘Desmedéia’’, ‘‘Desobediência Civil’’ e ‘‘Elis Regina’’. Este último é o único trabalho em que ela não diz uma única palavra em cena. Interpreta em gestos as canções de Elis.
Ao ler ‘‘De Profundis’’, de Oscar Wilde, Elias Andreato apaixonou-se especialmente por um trecho da obra. É aquele que fala do artista e do público. A necessidade do público se tornar ‘artístico’, uma visão que se choca com aquilo que se vê por aí. Ao invés da concessão, por que não fazer da platéia algo mais sensível e profundo?
Há 100 anos esse texto foi escrito, mas ele é tão atual que Andreato transformou-o na peça ‘‘Oscar Wilde’’. A arte é colocada aqui como forma de questionamento, de desvendamentos, de verdades. Mas para realizar um trabalho dentro destas características só mesmo sendo um ator independente, suspira Elias, aliviado.
‘‘É uma trajetória difícil e árdua’’, diz ele sobre esse processo. ‘‘Estamos num momento veloz, a mídia é determinante, o disco de Carla Perez é mais importante, Ratinho sai na capa da revista Veja... Betinho morreu e não sei se teve o mesmo espaço’’.
Pois é. Essa visão de valores, esse olhar sobre a sociedade e o humano, a reflexão do que é necessário para se viver está na obra de Wilde e, por conseguinte, no monólogo. ‘‘Eu me sinto extremamente orgulhoso com o que faço’’, comentou o ator. Quanto à condição de seu papel de artista, tem uma resposta dita com pompa e sinceridade:
- Nós não somos loucos, inúteis. Nós somos essenciais.
A peça ‘‘Maligno Baal, o Associal’’ não é um espetáculo com começo, meio e fim. Assim como o diretor extraiu um fragmento brechtiano, é com pequenos trechos que ele trabalha em sua concepção. Isso permite, segundo explica o diretor Márcio Aurélio, acompanhar o pensamento do autor.
Bertolt Brecht, em sua eterna inquietude, mostra que o comportamento que as pessoas adquirem com o passar do tempo, transforma-se numa atitude ‘‘normal’’ para ela e para quem está ao redor. São condicionamentos impostos pela sociedade, mas vistos pela lupa do dramaturgo, têm seu lado engraçado. Ele faz com que se pense as relações humanas, através do humor.
• Desobediência Civil - de Henry Thoreau e Denise Stocklos. Com Denise Stocklos. Hoje, às 21h30 e amanhã às 20h no Guairão. Ingressos: R$ 17,00.
• Oscar Wilde - de Elias Andreato, com base em ‘‘De Profundis’’, carta de Oscar Wilde. Direção de Vivien Buckup. Hoje às 21h30, amanhã às 20h, no Teatro do Paiol. Ingressos: R$ 17,00.
• Maligno Baal, o Associal - concepção e encenação de Márcio Aurélio. Hoje às 21h30, amanhã às 20h, no Teatro da Reitoria. Ingressos: R$ 17,00.

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