Três episódios, uma obra-prima
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 20 de abril de 2006
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Em Eros, filme em três episódios que estréia hoje na cidade (veja a programação de cinema na página 2), são narradas histórias em torno da sensualidade e do poder de atração da mulher. As assinaturas correspondem a diretores de continentes e estilos distintos. Antes de mais nada, é preciso dizer que o resultado final é apenas bom, e esta é a média obtida diante das narrativas assinadas por três cineastas tão diferentes quanto geniais.
Por ordem de entrada em cena, a abertura é a mais fraca, por conta de um Michelangelo Antonioni longe de sua melhor forma não apenas física, já que aos 94 anos sofre as seqüelas de um grave derrame, mas também criativa, uma pálida lembrança daquele filósofo das crises existenciais dos anos 1950 e 60.
O Rumo Perigoso das Coisas é o título deste exercício de lirismo visual sobre o corpo nu da mulher. O roteiro de outro histórico, o legendário Tonino Guerra, coloca em cena um casal em relação desgastada e uma bela e liberada mulher. Parece que não há mais tempo para Antonioni, amarrado apenas ao esboço ligeiro de alguma coisa que, em outros tempos, poderia ter rendido maior densidade psicológica.
Há uma melhora já a partir de Equilíbrio, que o americano Steven Soderbergh realizou em preto-e-branco. Aqui não há explicitude no erotismo, mas sua sugestão através de um libidinodo sonho recorrente narrado por um publicitário neurótico a seu analista. É mais um bem-humorado exercício de estilo do que alguma coisa mais consistente, com boas interpretações de Alan Arkin e Robert Downey Jr.
Mas quem teve paciência será plenamente recompensado. O chinês Wong Kar-wai, com a mesma delicadeza e finesse de Amor à Flor da Pele, entrega uma jóia rara, uma pequena obra-prima de apaixonadas sutilezas intuídas. Em A Mão, um alfaiate descobre sensações nunca antes imaginadas quando tira as medidas de uma prostituta de luxo, mulher etérea vivida por Gong Li. Nenhuma dúvida de que o diretor foi o único a entender de fato a encomenda: sabe quais são os caminhos tortuosos do desejo através de um dos sentidos, o tato, chegando de forma progressiva, através de uma simples carícia, a um dos momentos mais intensos do filme.


