Se pudessem, todos os súditos estariam hoje em Paris prestando reverências na passagem dos trinta anos de morte do Rei Lagarto, que era como Jim Morrison (1943-1971) se auto-intitulava.
A celebração deverá provocar congestionamentos em torno do cemitério Pére Lachaise, onde o corpo do artista foi sepultado em julho de 1971 . Na verdade, a data apenas amplifica uma romaria repetida todos os anos e que já obrigou a um fechamento do jazigo por causa do roubo do busto do compositor e do excesso de garrafas, flores, pixações e pontas de cigarro deixadas pelos fãs no local.
Na semana passada, a efeméride foi antecipada com o lançamento do CD ‘‘Bright Midnight – Live in America’’ reunindo 13 faixas do The Doors gravadas em shows nos Estados Unidos entre 1969 e 1970. Para hoje, estão programados dois especiais-tributos na televisão, que serão apresentados pelo tecladista Ray Manzarek, responsável pelo espólio da banda.
Em Londres, a rede de TV BBC também lembra o cantor levando ao ar o documentário ‘‘Dark Star’’ com depoimentos de biógrafos e dos três músicos remanescentes – o próprio Manzarek, o guitarrista Robbie Krieger e o baterista John Densmore. A onda de divinização parece não ter fim apagando qualquer vestígio de um Morrison real, que obviamente não interessa a mais ninguém.
O poeta em transe alucinógeno deixou um legado explosivo, um rastro de intensidade existencial e artística a que poucos no mundo do rock ousaram roçar. À frente dos Doors, impunha-se com sua voz abaritonada e seus versos sinistros repletos de frases bombásticas (‘‘Queremos o mundo / e queremos agora’’). No auge dos hinos pacifistas da geração flower power, ele explorava temas como a morte, o incesto, o pavor, o xamanismo e as paixões incandescentes movidas a sexo.
A formação da banda fugia do convencional. Não tinha baixista, mas destacava um órgão de fundo de garagem criando um coquetel sonoro original de blues, jazz e rock. Para muitos, a base instrumental servia apenas como suporte inflamável para as performances fora de controle do dândi Morrison. O próprio álbum póstumo ‘‘American Prayer’’, com as últimas sessões de estúdio do cantor, o trazia Jim declamando poesias.
A banda se limita a executar a trilha de fundo. A inspiração poética já havia sido revelada nos livros que publicara na França, nos quais revelava influências de poetas românticos do século XIX acrescentando citações de Nietzsche e Rimbaud. Magnético no palco, Morrison incomodou até onde pode o puritanismo e as autoridades da América. Em 1967, quando os Doors decolavam rumo ao sucesso com a canção ‘‘Light My Fire’’ alcançando o primeiro lugar nas parada de singles, Jim era preso por abaixar as calças diante da platéia. No meio do ano seguinte, nova prisão, dessa vez por desordem a bordo de um avião. Na temporada posterior, mais uma treta, com Morrison sendo retirado do palco por policiais durante um show sob a acusação de ‘‘simular sexo oral e masturbação em público’’.
Com um processo nas costas, não pode mais se apresentar prejudicando a carreira da banda. Em 1971, os Doors lançaram o álbum ‘‘L.A.Woman’’, um disco mais orientado para o blues e que foi bem recebido pela crítica. Logo depois, um Morrison barbudo e gordo mudou-se para Paris onde anunciou que queria repensar a carreira, publicar poemas e mexer com cinema. Mas, a essa altura, já descia aos infernos entupindo-se diariamente com álcool e drogas.
No dia 3 de julho, seu corpo foi encontrado morto na banheira do apartamento pela namorada Pamela Courson. A causa mortis foi um ataque cardíaco, provavelmente devido à overdose de heroína. A verdade nunca veio à tona. Pamela, a única pessoa que tivera contato com ele naquela noite, morreria três anos depois, também de overdose. O mistério paira até hoje, o que só serve para reforçar a idolatria e o lançanento de intermináveis produtos caça-níqueis.

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