TRÊS DÉCADAS SEM O DÂNDI DO ROCK
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segunda-feira, 02 de julho de 2001
Nelson Sato de Londrina 
Se pudessem, todos os súditos estariam hoje em Paris prestando reverências na passagem dos trinta anos de morte do Rei Lagarto, que era como Jim Morrison (1943-1971) se auto-intitulava.
A celebração deverá provocar congestionamentos em torno do cemitério Pére Lachaise, onde o corpo do artista foi sepultado em julho de 1971 . Na verdade, a data apenas amplifica uma romaria repetida todos os anos e que já obrigou a um fechamento do jazigo por causa do roubo do busto do compositor e do excesso de garrafas, flores, pixações e pontas de cigarro deixadas pelos fãs no local.
Na semana passada, a efeméride foi antecipada com o lançamento do CD Bright Midnight Live in America reunindo 13 faixas do The Doors gravadas em shows nos Estados Unidos entre 1969 e 1970. Para hoje, estão programados dois especiais-tributos na televisão, que serão apresentados pelo tecladista Ray Manzarek, responsável pelo espólio da banda.
Em Londres, a rede de TV BBC também lembra o cantor levando ao ar o documentário Dark Star com depoimentos de biógrafos e dos três músicos remanescentes o próprio Manzarek, o guitarrista Robbie Krieger e o baterista John Densmore. A onda de divinização parece não ter fim apagando qualquer vestígio de um Morrison real, que obviamente não interessa a mais ninguém.
O poeta em transe alucinógeno deixou um legado explosivo, um rastro de intensidade existencial e artística a que poucos no mundo do rock ousaram roçar. À frente dos Doors, impunha-se com sua voz abaritonada e seus versos sinistros repletos de frases bombásticas (Queremos o mundo / e queremos agora). No auge dos hinos pacifistas da geração flower power, ele explorava temas como a morte, o incesto, o pavor, o xamanismo e as paixões incandescentes movidas a sexo.
A formação da banda fugia do convencional. Não tinha baixista, mas destacava um órgão de fundo de garagem criando um coquetel sonoro original de blues, jazz e rock. Para muitos, a base instrumental servia apenas como suporte inflamável para as performances fora de controle do dândi Morrison. O próprio álbum póstumo American Prayer, com as últimas sessões de estúdio do cantor, o trazia Jim declamando poesias.
A banda se limita a executar a trilha de fundo. A inspiração poética já havia sido revelada nos livros que publicara na França, nos quais revelava influências de poetas românticos do século XIX acrescentando citações de Nietzsche e Rimbaud. Magnético no palco, Morrison incomodou até onde pode o puritanismo e as autoridades da América. Em 1967, quando os Doors decolavam rumo ao sucesso com a canção Light My Fire alcançando o primeiro lugar nas parada de singles, Jim era preso por abaixar as calças diante da platéia. No meio do ano seguinte, nova prisão, dessa vez por desordem a bordo de um avião. Na temporada posterior, mais uma treta, com Morrison sendo retirado do palco por policiais durante um show sob a acusação de simular sexo oral e masturbação em público.
Com um processo nas costas, não pode mais se apresentar prejudicando a carreira da banda. Em 1971, os Doors lançaram o álbum L.A.Woman, um disco mais orientado para o blues e que foi bem recebido pela crítica. Logo depois, um Morrison barbudo e gordo mudou-se para Paris onde anunciou que queria repensar a carreira, publicar poemas e mexer com cinema. Mas, a essa altura, já descia aos infernos entupindo-se diariamente com álcool e drogas.
No dia 3 de julho, seu corpo foi encontrado morto na banheira do apartamento pela namorada Pamela Courson. A causa mortis foi um ataque cardíaco, provavelmente devido à overdose de heroína. A verdade nunca veio à tona. Pamela, a única pessoa que tivera contato com ele naquela noite, morreria três anos depois, também de overdose. O mistério paira até hoje, o que só serve para reforçar a idolatria e o lançanento de intermináveis produtos caça-níqueis.


