TRÊS DÉCADAS SEM JANIS
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terça-feira, 03 de outubro de 2000
Nelson Sato De Londrina 
Hoje é dia de tocá-la bem alto até espantar todos os monstros da casa. Foi há trinta anos, depois de uma dezena de picadas de heroína, que Janis Joplin partiu alimentando a mitologia em torno dos artistas mortos no auge do estrelato.
Nenhum disco está previsto para chegar às lojas pegando carona na data, mesmo porque a caixa com cinco CDs, lançada no final do ano passado, praticamente raspou o fundo do baú de tudo o que a cantora deixou gravado. Mas não é improvável que fãs espalhados pelo mundo aproveitem a celebração para produzir programas de rádio, publicar fanzines ou inaugurar sites na Internet dedicados à cantora.
Afinal Janis continua derrubando comparações, relegando à sua sombra potenciais herdeiras e supostas sucedâneas. Verbetes costumam defini-la como a maior cantora branca de blues. Canto música negra para arrancar dinheiro dos brancos debochava ela. Intensa e meteórica, sua trajetória simbolizou a ascensão e o declínio da geração que pregava paz e amor no final dos anos 60.
Biógrafos associam as interpretações viscerais da cantora a seus dramas íntimos. Eu faço amor com 20 mil pessoas no palco, depois vou dormir sozinha declarou certa vez. De certa forma, com a fama, perdemos todos os velhos amigos e as viagens dificultam fazer novos amigos. É uma vida solitária. Vivo para o momento do palco, como se esperasse por alguém a vida toda salientou em outra ocasião.
Janis visitou o Brasil em 1970, onde veio passar férias no Rio de Janeiro. Convidada para um evento no Teatro Municipal, foi proibida de entrar. Estranharam seu figurino hiponga e não a reconheceram. Nos poucos dias em que circulou pelo país, diz a lenda que chegou a ter um romance com o roqueiro carioca Serguei, que ele trata de reproduzir em entrevistas.
A cantora deixou quatro discos oficiais e memoráveis registros de shows. Explodiu depois de se apresentar nos palcos do festival Monterey Pop (1967) e do Oakland Coliseum (1968). Se o primeiro foi marcado pela presença de Jimi Hendrix, que roubou as atenções ao simular uma relação sexual com a guitarra e tocar fogo no instrumento ao final de seu set, o segundo é lembrado pela performance de Janis, que inflamou a platéia com interpretações arrebatadoras das músicas Summertime, Piece of My Heart e Ball and Chain durante as quais foi rasgando a roupa até ficar nua.
O show rendeu uma ficha na polícia por atentado ao pudor e falta de decoro público. Nada de excepcional em sua conturbada biografia que inclui, entre outras peripécias, expulsões de três universidades e uma desistência motivada pelos apelos do movimento hippie então emergente em São Francisco, para onde se mandou ao lado do namorado Bruce, que morreria logo depois na Guerra do Vietnã.
A essa altura álcool, LSD e heroína já faziam parte de sua dieta diária ao lado de veneradas audições de Bessie Smith, Leadbelly e Otis Redding. Cantando em bares em troca de bebida, foi descoberta pelo poeta beatnik Chet Helms, que a apresentou à banda The Big Brother and the Holding Company com a qual estreou em disco gravando um álbum de pouca repercussão, em 1967.
Um ano depois, lançou Cheap Thrills com capa desenhada pelo quadrinhista Robert Crumb. O disco emplacou as canções Summertime (de George e Ira Gershwin), Piece of My Heart e Ball and Chain alcançando o topo das paradas com uma vendagem de um milhão de cópias. Em 1969, lançou o álbum I Got Dem Ol Kozmic Blues Again, Mama.
No mesmo ano, fez uma apresentação desastrosa em Woodstock, a ponto de ser excluída do disco e do filme sobre o festival. Com sua nova banda Full Tilt Boogie Band, voltou a excursionar gravando 11 músicas para o álbum Pearl, que sairia três meses depois de sua morte. O single Me and Bobby MacGee, extraído do disco, bateu recordes de execução nas rádios.
Pelas circunstâncias, uns e outros procuraram anúncios de sua morte ao longo das letras. A necrofilia foi reforçada com a informação de que a última faixa gravada por ela trazia o título Burried Alive in the Blues (Enterrada Viva na Tristeza). Na madrugada de 4 de outubro de 1970, Janis foi encontrada morta num quarto de hotel em Hollywood, caída no chão, com os lábios ensanguentados.
Tinha 27 anos. Seu corpo foi cremado e as cinzas jogadas no Oceano Pacífico. Em seu testamento, deixou US$ 2,5 mil para serem gastos numa bebedeira de amigos em sua memória.


