Curitiba – O Museu de Arte Contemporânea (MAC), em Curitiba, está se transformando para receber as obras do artista Ivens Machado. Além de uma instalação em uma das paredes do prédio histórico, que ganhou uma estrutura para abrigar um painel em barro vermelho tão extenso quanto o próprio suporte (11 x 6 metros), as salas receberam novas pinturas, de cores ocre e preto, para mostrar ao público as esculturas, desenhos e instalações. São obras feitas em sua maioria em concreto, cacos de vidro e madeira. Mas também há materiais singulares, como desenhos em papéis pautados que remetem a um lirismo quase antagônico ao conjunto da obra.
A exposição ‘‘Ivens Machado - O Engenheiro de Fábulas’’ abre na segunda-feira e é uma retrospectiva de 30 anos de carreira. Por isso, alguns trabalhos são tão distintos entre si, capazes de revelar um artista de múltiplas faces. ‘‘São abordagens diferentes, mas que podem ser divididas em dois momentos da minha carreira’’, revelou Machado, em entrevista à Folha2.
Enquanto monitorava a montagem da mostra, o artista contou que, apesar da exposição não ser sequencial, nas obras datadas dos anos 70, é possível observar uma maior preocupação com o conceito do que nos trabalhos posteriores. Nessa época, revela, as obras eram mais gráficas. São desenhos e intervenções em papéis pautados que ele classifica como uma crítica ao sistema. ‘‘As pautas do caderno são manifestações do controle social. Com o desequilíbrio dessas pautas, começa haver um dessarranjo desse sistema’’, metaforiza.
Foi apenas na metade da década de 70 que Ivens Machado começou a trabalhar com um material inusitado, mas que o projetou como artista singular, dono de um vasto currículo nacional e internacional. São obras que utilizam o concreto como suporte mesclado ora com cacos de vidro ora com madeira e muitas vezes unindo os três materiais. Produtos resistentes, de difícil maleabilidade, mas foi exatamente essas características que atraíram Machado, conforme conta. ‘‘Queria trazer elementos da arquitetura popular para a obra de arte’’, explica.
A mostra já passou pelo Paço Imperial, no Rio de Janeiro; pela Pinacoteca de São Paulo e chega agora em Curitiba, onde encerra a turnê patrocinada pela Petrobras. Para realizá-la o artista foi um dos 13 selecionados entre quase 850 inscritos. A exposição acompanha um livro-catálogo com textos do crítico Paulo Herkenhoff e abertura assinada por Ligia Canongia.
O curioso é que por onde a mostra passa ganha nova versão. ‘‘Depende muito do espaço’’, esclarece o artista. Para ele, as obras interagem com o espaço em que está sendo exposto. No caso do MAC, uma das dificuldades foi o tamanho das salas. Por isso, Machado optou por separar as obras e colocá-las quase que uma em cada sala. ‘‘O público vai ter uma relação mais intimista com a obra’’, revela.
São 48 obras. Algumas pesando até 300 quilos. Uma das paredes foi recoberta por barro vermelho para receber duas instalações. A intervenção não interfere na estrutura do prédio histórico, já que foi colocado um suporte para receber a parede, que será retirada ao final da mostra. Além das peças em concreto e dos desenhos do artista, também é destaque na exposição um vídeo feito pela Rio Arte, que reúne dois trabalhos assinados pelo artista, datados (também) da década de 70.
O primeiro deles é intitulado ‘‘Dissolution’’ e é resultado de uma performance utilizando a assinatura de Machado, onde ele escreve obsessivamente seu nome. O outro, ‘‘Versos’’, é uma brincadeira com a velocidade, quase uma metáfora que mostra o processo e a forma com que ele produz as suas obras.
Serviço
Exposição ‘‘Ivens Machado - O Engenheiro de Fábulas’’. Abertura dia 27, às 18 horas, no Museu de Arte Contemporânea do Paraná (Rua Desembargador Westphalen, 16), em Curitiba. De segunda à sexta, das 10 às 19 horas. Sábados e domingos das 10 às 16 horas, até o dia 23 de junho. Entrada franca.

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