Três bons monólogos voltam aos palcos de SP
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segunda-feira, 17 de janeiro de 2000
Por Beth Néspoli 
São Paulo, 17 (AE) - A escassez de recursos para a cultura certamente foi responsável pela abundância de monólogos encenados no ano passado. Há quem torça o nariz para esse gênero teatral. E não sem razão. Defeitos que poderiam diluir-se numa grande produção ganham relevância e podem tornar a permanência no teatro uma tortura na arte concentrada do monólogo. A aridez do gênero só aumenta os méritos da equipe de criação de três espetáculos que voltam a ser apresentados esta semana na cidade. "A Maçã de Eva, com Clarisse Abujamra, "O Caderno Rosa de Lori Lamby", com Iara Jamra, e "Memórias Póstumas de Brás Cubas", com Cássio Scapin, são exemplos de acertos no gênero, desses que tornam a ida ao teatro um ótimo programa. E isso não ocorre por acaso.
Em comum, os três espetáculos têm bons intérpretes, ótimos textos e produções cuidadas e bem dirigidas. Dario Fo, Prêmio Nobel de Literatura, reconhecido por sua capacidade de realizar crítica social sem perder o humor, autor de peças como "Brincando em Cima Daquilo" e "Um Orgasmo Adulto Fugiu do Zoológico", é o autor de "A Maçã de Eva", em parceria com sua mulher, Franca Rame, e com Jacopo Fo. Síntese - Sob direção de Ivan Feijó, Clarisse estreou o monólogo no difícil horário da meia-noite no Teatro Hilton. E não faltou público para rir de sua acanhada personagem, decidida a fazer uma palestra sobre sexo. Ela começa contando a própria experiência, sua infância e os equívocos da sua educação sexual. O tom de humor - escancarado em alguns momentos - e o tema não devem iludir os mais desavisados. Quem conhece o autor sabe que o assunto é sério sem ser sisudo.
"Aparentemente, eu falo de sexo quase o tempo todo, mas todo mundo percebe que o tema é a relação amorosa, na verdade a dificuldade de lidar com o amor", diz Clarisse. Numa das cenas mais hilariantes do espetáculo, Clarisse "interpreta" uma cena "clássica" de filme pornô - certamente criada por um homem - para criticar alguns dos equívocos sobre o orgasmo feminino. Numa outra, um casal interpreta mal o conselho de um sábio e, supondo ser a melhor forma de melhorar a relação afetiva, passa a fazer sexo exaustivamente. "Acho que é uma cena síntese da peça", diz Clarisse.
Diante do massacre de imagens sexuais, a cobrança pelo desempenho embota a natural busca de prazer. "Por isso, a gente precisa reaprender a lidar com o corpo", acredita. Clarisse vai apresentar "A Maçã de Eva" também no Teatro Procópio Ferreira, na Praia da Enseada, no Guarujá, no litoral paulsta, nos dias 27 e 28.
Sesc - Pelo teatro do Sesc Ipiranga passaram muitos dos monólgos que estiveram nos palcos brasileiros no ano passado. A Série Solos de Teatro foi criada com o objetivo de abrir espaço para um intercâmbio mais direto entre intérprete e público. Nesta semana, será a vez de Cássio Scapin e Iara Jamra apresentarem no local os monólogos "Memórias Póstumas de Brás Cubas" e "O Caderno Rosa de Lori Lamby".
Como sempre ocorre na programação da série, ambos vão falar sobre o seu processo de criação teatral. Juntos, eles conversarão com os interessados - estudantes, jovens atores ou público comum - na quinta-feira, às 15 horas. As senhas para essa palestra devem ser retiradas na bilheteria do Sesc Ipiranga. Fidelidade na adaptação - Um dos principais aspectos em comum entre os dois monólogos está nas adaptações, que conseguiram manter com o máximo de integridade o excelente texto original. Regina Galdino - também diretora do espetáculo - foi a responsável pela transposição de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis, para o palco e Reinado Maia, pelo livro de Hilda Hilst "O Caderno Rosa de Lori Lamby", dirigido por Bete Coelho.
A sexualidade também é tema desse monólogo. Tratada, porém, com rara mistura de delicadeza e inteligência. Lori Lamby é uma garota de 8 anos que resolve anotar em seu caderninho rosa suas "aventuras sexuais" para ajudar seu pai, um escritor fracassado, cobrado pelo editor a escrever "algo vendável".
"Memórias Póstumas" é uma obra-prima de Machado, um mestre na linguagem, gênio em sua capacidade de observação do homem. Mas a sofisticação de sua linguagem - deliciosa de ser lida - costuma sofrer a rejeição antecipada de um segmento de jovens que ainda não descobriu o barato da leitura. Daí que entre os méritos do espetáculo esteja o de ter sido bastante fiel à linguagem original e, ao mesmo tempo, conseguido resultar simples sem ser simplista, possuindo grande empatia com o público jovem.
Na introdução, o defunto Brás Cubas - num ótimo figurino de Fábio Namatame - faz um pacto com o espectador: "Se te agradar, pago-me da tarefa; se não te agradar, pago-te com um piparote, e adeus". O talento da equipe e, sobretudo, a interpretação talentosa de Cássio Scapin têm evitado a necessidade de distribuir piparotes ao fim do espetáculo. Serviço - "O Caderno Rosa de Lori Lamby". De Hilda Hilst. Direção de Bete Coelho. Duração: 45 minutos. Quarta e quinta, às 21 horas. "Memórias Póstumas de Brás Cubas". De Machado de Assis. Adaptação e direção de Regina Galdino. Sexta e sábado, às 21 horas. R$ 10,00. Teatro do Sesc Ipiranga. Rua Bom Pastor, 822, tel. 3340-2036 "A Maçã de Eva". De Franca Rame, Dario Fo e Jacopo Fo. Direção de Ivan Feijó. Duração: 1 hora. Terça e quarta, às 21 horas. R$ 20,00. Teatro Bibi Ferreira. Avenida Brigadeiro Luís Antônio, 931, tel. 3105-3129. Até 23/2


