A meninada desce do ônibus escolar e entra na pequena mata encravada ao lado do grande shopping. A velha cerca de metal foi trocada por impenetrável paliteiro de concreto, vigiado por câmeras para policiamento à distância mas sempre de prontidão.

A mata esquecida ao lado do shopping
A mata esquecida ao lado do shopping | Foto: Reprodução

Em salão de madeira reciclada, no alto do terreno onde não há mata, a turma vê vídeo sobre a origem de Londrina, a floresta, as três minas ou bocas de água cercadas de floresta, ali onde, em 21 de agosto de 1929, acampou uma caravana para abrir clareira. No telão aparece o moço George Craig Smith, chefe da caravana que chegou reabrindo a facão uma velha trilha desde Jataizinho.

O telão vai mostrando que a clareira se tornou o Patrimônio Três Bocas, que em 1935 se tornou Município de Londrina, e as três bocas d'água com sua mata e clareira em redor foram compradas como chácara pelo pioneiro Celso Garcia Cid. Ele resolveu preservar a mata, num tempo em que nem existiam normas ambientais, mas depois venderia toda a chácara a uma empresa, para custear sua épica importação de bois zebus da Índia, revolucionando a pecuária brasileira.

Depois ainda, conta o vídeo, todo o terreno de 30 hectares foi vendido a outra empresa, já com o nome de Marco Zero. Depois ainda, a grande área seria comprada para shopping center e outros empreendimentos, sendo a parte da mata doada ao Município. Foi cercada por um muro de metal que continuou a ser vazado pelos drogados, enquanto as três minas de água iam sendo assoreadas por erosão e seu nascente riacho era logo a seguir poluído por esgotos da cidade.

Mas a meninada também vê no telão que um dia Londrina resolveu honrar seu berço, vigiando e preservando a mata e as três bocas que agora eles vão conhecer. Vão por uma trilha de madeira suspensa, para não impactar o solo, explica o guia, e param diante de uma peroba. É a árvore mais alta da floresta – conta o guia - embora seja também a mais nova, a espécie é um nenê vegetal de apenas 300 mil anos. E Londrina no começo foi toda de peroba, desde a balsa, as casas, os móveis, os postes. Mas só poucas perobas se perpetuaram assim, a maioria foi queimada onde tombou. O campus da Universidade se chama perobal mas, das muitas perobas que havia lá, restam poucas, porque peroba não vive muito tempo fora de mata, pois por serem altas e de tronco reto, caem com vento, por isso essas aqui são preciosidades.

Param diante de imensa árvore com grandes raízes acima da terra, o guia diz que é uma figueira-branca, nossa árvore mártir:

- Figueiras só dão em terra bem fértil, então eram procuradas pelos desbravadores como sinais de terra boa. Mas, como sua madeira não serve nem mesmo para lenha, não tinha nem ao menos uma sobrevida útil como a peroba.

O guia vai falando de Eco-História até uma bica onde convida para beberem água nas mãos, como faziam os índios e os pioneiros. Chega mais gente, passageiros à espera de seus ônibus na rodoviária. Gente vem também do shopping vizinho, compram ali na lojinha lembranças de Londrina, artesanato de peroba reciclada e...

Acordo do sonho.

Vou lá visitar a Mata por fora, com sua cerca apenas de efeito visual, sempre invadida, as bocas de água minguando assoreadas, o abandono prenunciando um futuro de degradação. Ou não? Pois de repente surge o fantasma de Seo Celso:

- Londrina vai deixar seu berço acabar assim? Que futuro tem quem despreza o passado?

Sempre, respondo, alegarão falta de recursos, e ele pisca matreiro:

- A ideia não é gastar, é investir em educação e turismo, todos acabam ganhando!

A mata comenta piando e cantando...

mockup