São Paulo, 08 (AE) - A poesia e a prosa de Manuel Bandeira na peça "Itinerário de Pasárgada" e na voz da Cia. As Graças, que já provou talento para transformar linguagem poética em linguagem teatral no premiado "Poemas para Brincar", de José Paulo Paes; o humor do Prêmio Nobel de Literatura, Dario Fo
no monólogo "A Maçã de Eva" interpretado por Clarisse Abujamra; e a crítica social mordaz de Dias Gomes no musical "A Revolução dos Beatos", dirigido por Marco Antônio Rodrigues, com alunos da Escola de Arte da Dramática da USP são três estréias deste fim de semana que valem uma ida ao teatro.
"Itinerário de Pasárgada" tem direção-geral e adaptação de Regina Galdino, a mesma de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", com Cassio Scapin, e estréia sábado no Centro Cultural São Paulo. "Fiquei muito contente em poder levar Bandeira ao palco", diz. "Quando estava adaptando Machado, um grande desafio, algumas pessoas duvidavam da teatralidade do texto e foi um sucesso de público", lembra. "Com Bandeira não foi diferente; já apresentamos o espetáculo em praças e ruas de 20 cidades do interior, integrando o projeto Coração dos Outros, Saravá, Mário de Andrade, do Sesc e a receptividade foi imensa"
conta.
Regina optou por costurar crônicas e poesias num desenho que vai desde a infância do poeta, passando pela maturidade até a velhice, sem acrescentar uma só palavra que não tenha saído de sua obra. Por meio do espetáculo, o público entra em contato não só com a criação do poeta como vai conhecer um pouco de sua vida
relatada na espécie de autobiografia que dá título ao espetáculo. Nas páginas de "Itinerário de Pasárgada", ele relatou os percalços de sua vida e a inspiração de muitas de suas poesias, como "Pneumotórax" e "Vou-me Embora para Pasárgada".
Aos 18 anos Bandeira recebeu o diagnóstico de sua tuberculose, uma doença incurável na época, da qual só se curou aos 31 anos e muito de sua poesia foi criada sob o signo dessa urgência de viver. Ironicamente, o poeta morreu em 1968, aos 82 anos. Sem jamais perder o humor, ao completar 80 anos brincou com o fato de ainda estar vivo, um dos belos textos presentes no palco. Segundo a diretora, a simplicidade é a marca do poeta e o espetáculo segue esta linha. Ela enfatiza o talento das atrizes para tirar proveito da musicalidade dos textos sem cair no recital. "Na rua as pessoas vinham falar com a gente e não sabiam distinguir o que era prosa ou poesia".
Ela destaca ainda a importante contribuição da música. Além de aproveitar canções já conhecidas sobre poesias do autor, de Tom Jobim a Villa-Lobos, algumas composições foram criadas especialmente para o espetáculo por Pedro Paulo Bogossian, responsável pela direção musical, repetindo uma dobradinha já feita com a diretora na adaptação de Machado de Assis. Maçã - O humor é o principal atrativo do monólogo "A Maça de Eva", criação conjunta de Dario Fo, Franca Rame e Facopo Fo, que estréia no Teatro Hilton amanhã, à meia-noite. "É uma peça para chorar de rir", afirma a intérprete Clarisse Abujamra. O sexo é o tema deste texto criado em 1996, um dos mais recentes de Dario Fo, conhecido no Brasil por outros monólogos como "Brincando em Cima Daquilo" ou "Um Orgasmo Adulto Fugiu do Zoológico".
Bem ao estilo do autor, a peça tem início com um discurso político. Uma mulher dirige-se a platéia para falar sobre a situação do país, mas ao abordar temas como comportamento dos políticos, fraudes, corrupção e desrespeito ao cidadão chega à conclusão que é melhor falar de coisa séria. Decide então fazer uma palestra sobre relações sexuais. "Eu recriei o texto inicial, adaptei-o ao Brasil, sem deixar de dar nomes aos bois", conta Clarisse.
Mas quando o tema fica "sério", ou seja, quando a palestrante fala de sexo, o texto original foi mantido na íntegra. Claro que a crítica social não deixa de estar presente. "O que inspira o tema é principalmente a ignorância que ainda reina sobre o assunto, apesar ou justamente por causa da sua superexposição na mídia", explica Clarisse. Tanto que ela vai terminar a palestra falando sobre Adão e Eva, afinal ninguém precisa aprender nada sobre o assunto, mas sim limpar as camadas de informações distorcidas acumuladas ao longo do tempo.
"Da virgindade ao orgasmo feminino, da ejaculação precoce ao aborto, nada escapa aos autores e tudo é abordado de uma forma engraçadíssima", afirma Clarisse. Beatos - Humor, nem seria preciso dizer, nunca faltou ao dramaturgo Dias Gomes, autor de "A Revolução dos Beatos", que estréia sábado no Teatro Laboratório da EAD com um elenco integrado por 13 alunos, sob direção de Marco Antônio Rodrigues. "Estávamos em pleno processo de ensaios quando fomos atingidos pela notícia da morte estúpida do autor", conta Rodrigues.
Curiosamente, a peça estreou em 1962, no Teatro Brasileiro de Comédia, com direção de Flávio Rangel e cenários de Cyro Del Nero, mesmo cenógrafo da atual montagem. No palco, música e danças populares numa história contada por romeiros. Segundo o diretor, não perdeu a atualidade o texto que discute o amálgama formado por religião, coronelismo, cangaço e revolução popular. "Mudou a forma: o coronel agora é senador, o padre Cícero virou padre roqueiro e o cangaço, guerra urbana". Serviço - "Itinerário de Pasárgada". Tragicomédia. Adaptação e direção de Regina Galdino. Com a Cia. As Graças. Duração de 55 minutos. Sexta e sábado, às 21h30; domingo, às 20h30. R$ 12,00. Centro Cultural São Paulo - Sala Jardel Filho. Rua Vergueiro, 1.000, tel. 3277-3611. Até 15/8. Estréia sábado, às 21h30 "A Maçã de Eva". Monólogo. De Franca Rame, Dario Fo e Jacopo Fo. Direção de Ivan Feijó. Com Clarisse Abujamra. Duração de 1h20. Amanhã e sábado, à meia-noite; domingo, às 20h30. R$ 20 00. Teatro Hilton. Avenida Ipiranga, 165, tel. 259-6508. Até 26/9 "Revolução dos Beatos". Tragicomédia. De Dias Gomes. Dir. Marco Antônio Rodrigues. Com os alunos do EAD/ECA. Duração de 2 horas. De quarta a sábado, às 21h30; domingo, às 20h30. Grátis (retirar ingressos com uma hora de antecedência). Teatro Laboratório ECA/USP - Sala Alfredo Mesquita. Avenida Professor Luciano Gualberto, travessa J, 215, tel. 818-4375. Até 25/7

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