Três artistas na paisagem
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de junho de 2000
Jackeline Seglin De Londrina 
Não há dúvidas que o Brasil encanta pelas belezas naturais. Os estrangeiros, em particular, cultivam um fascínio pelo cenário tropical da mesma forma que os brasileiros admiram coisas de outros países. E foi a curiosidade que levou um grupo de atores da Espanha a escolher a natureza como tema para uma viagem por Londrina. Os espanhóis Oscar Sánchez, Paloma Vidal e a argentina Marina Seresesky, do grupo Teatro Meridional estiveram na cidade na semana passada, participando do Filo.
Convidado pela Folha2 a fazer um passeio para conhecer particularidades e fazer comparações com seu país de origem, o trio optou pela natureza. O roteiro incluía o Parque Arthur Thomas e o Salto do Apucaraninha.
Moramos em uma cidade de 3,5 milhões de habitantes. Do Brasil, conheço São Paulo, que é aquela coisa grandiosa. Ver coisas diferentes em uma cidade como Londrina seria muito bom. Tenho curiosidade pelas coisas da América. A natureza é uma delas, revelou Oscar Sánchez.
Fim de tarde no Parque Arthur Thomas. Oscar Sánchez registra a primeira impressão: Lembra um parque madrilenho, o do Retiro, que tem um lago parecido. Mas aqui é maior, compara. Ele quis saber se artistas costumavam trabalhar no parque, pintando ou cantando, como em Madri. Logo perceberam que o cenário era um pouco diferente. Macacos? Onde?.
Mas o que surpreendeu os espanhóis foram as capivaras. Capi o quê?, perguntou Paloma ao guarda florestal. Capivaras. Daqui a pouco elas chegam às margens do lago. São animais de hábitos noturnos, explicou. A atriz quis logo saber como eram, de que tamanho, o que comiam, se mordiam... Ela mesma pôde conferir. Como são grandes esses roedores!. Com a aproximação do grupo, os animais se atiraram na água o que impressionou ainda mais os três artistas.
A visita acabou rendendo bem mais que um passeio. Dois dias depois, o público do Filo que assistiu ao espetáculo Qfwfq Uma História do Universo ouviu, no meio do texto, a referência a dois animais: macacos e capivaras. Afinal, agora eles os conheciam e resolveram incluí-los na peça.
No dia seguinte, Oscar, Paloma e Marina estavam prontos para prosseguir o passeio. Calçando sandálias de tiras, logo foram alertados para usar um sapato mais adequado. A primeira parada foi na aldeia indígena kaingang, no Salto do Apucaraninha, incluída no roteiro a pedido dos espanhóis. Não temos índios lá e sim camponeses. Gostaríamos de conhecer o modo de vida deles, disse Oscar.
Recepcionado pelo cacique Juscelino Vergílio, o trio percorreu um trecho da aldeia, perguntando sobre os mais variados assuntos: costumes, cultura, educação, comida, religião. Marina Seresesky quis saber de onde vem o sustento das 238 famílias que vivem no local. Da agricultura, do artesanato, da pesca e da criação de animais, respondeu o cacique.
Paloma Vidal demonstrou interesse pela cultura indígena ao ouvir que a aldeia tinha um grupo de dança e que alguns índios pintavam, enquanto outros faziam peças de artesanato.
Os espanhóis conheceram ainda a escola, passaram por algumas casas e brincaram com as crianças que pediram que eles tirassem fotos de suas bicicletas. Ao ver uma máquina fotográfica descartável nas mãos de Paloma, o cacique quis saber como funcionava. Em espanhol, Paloma tentou explicar a diferença a Juscelino.
Outro animal instigou a curiosidade dos três visitantes. Quando o cacique começou a contar as aventuras no rio Apucarana Grande, as armadilhas para pegar peixe e falar das onças que rondam a aldeia... Onça, o que é?, perguntou Marina. Ao saber do que se tratava, não quis prolongar o passeio. Mas não come não! Pelo menos quando estamos em grupo, tranquilizou o cacique.
O último ponto da viagem era o mais esperado pelos espanhóis. Ao avistarem o Salto do Apucaraninha do mirante, os três ficaram impressionados. Tiraram fotos de todos os ângulos e comentavam entre si sobre o que acabavam de ver. Em pouco tempo, Oscar já estava do outro lado, sem sapatos, andando pelo rio. Sobre as pedras, chegou bem próximo à grande queda dágua. Isso é muito grande para nós. Essa natureza é maravilhosa! Olha aquelas pessoas lá em baixo, que pequenas. Olá!!!, gritava.
Marina preferiu a tranqulidade. Deitou-se sobre uma das pedras e ficou a ouvir os ruídos da natureza. Paloma não aguentou o sol: molhou na água fria o rosto e os cabelos. Oscar parecia uma criança, pulando de pedra em pedra e fazendo graça para as amigas. Exaustos, os espanhóis estavam prontos para a volta. No caminho, uma última apresentação: este é um ramo de café. Mais que depressa, trataram de experimentar o fruto vermelho. Vamos levar uma lembrança. E incluíram o grão desconhecido na bagagem.


