São Paulo, 06 (AE) - Radu Mihaileanou não esquece sua passagem por São Paulo, em 1998. Veio participar da Mostra Internacional de Cinema. Seu filme "Trem da Vida" foi o duplo vitorioso naquele ano - ganhou os prêmios do público e da crítica. "É raro, mas não impossível; irmanar críticos e o público no mesmo movimento deixa um diretor em estado de graça"
ele diz pelo telefone, falando à reportagem, de Paris, onde reside há 20 anos. "Trem da Vida" estréia amanhã (07). É um belíssimo filme. Como estréia depois de "A Vida É Bela", de Roberto Benigni, você talvez se equivoque pensando que Mihaileanou segue a vertente inaugurada pelo ator e diretor italiano, que tratou o holocausto (a shoá, como diz Mihaileanou) como tragicomédia. Não é verdade. Mihaileanou escreveu seu filme em 1993-94. Chegou a oferecer, em 1995, o papel decisivo do louquinho justamente a Benigni. Mas ele acha complicado dizer que o duplo vencedor do Oscar no ano passado (melhor ator e melhor filme estrangeiro) copiou sua idéia.
"Ele deu uma entrevista aqui em Paris dizendo que, na época em que lhe enviei o roteiro, já havia desenvolvido a concepção do que viria a ser A Vida É Bela". Há 20 anos que Mihaileanou não apenas reside em Paris. Também é cidadão francês. Ele nasceu em Bucareste, na Romênia, há 42 anos. Foi lá que cresceu ouvindo as histórias contadas por seu pai, um judeu sobrevivente da shoá. Essas histórias fizeram parte da infância e da juventude do diretor. Conviveram tanto com ele que Mihaileanou começou a pensar no que terminou sendo o roteiro de "Trem da Vida". Começa numa aldeia judaica na Europa. Os nazistas estão chegando. O bobo da aldeia tem então a idéia: e que tal fugir, simulando que são judeus deportados pelos nazistas, num trem comandado pelos soldados e oficiais de Hitler? Cria-se a farsa do trem: os próprios judeus disfarçam-se como nazistas e partem rumo ao que promete ser a liberdade e a salvação. Acontece, porém, que os falsos nazistas assumem um comportamento totalitário e oprimem os companheiros judeus. Surgem, do grupo, os comunistas, que contestam a autoridade.
Mihaileanou diz que, no princípio, não pensava em fazer um filme sobre a shoá, muito menos uma comédia. Queria resgatar as tradições da aldeia judaica, recuperar a tradição de uma língua, o iídiche, de uma memória coletiva, a do povo judeu, sempre confrontado com o racismo e a autoridade. Mostrar um mundo e uma tradição em vias de desaparecer, em suma. Escreveu e reescreveu diversas vezes o roteiro.
Viu o projeto do filme assumir o formato de uma tragicomédia. Não foi um filme fácil de escrever, admite Mihaileanou. Ele se policiava o tempo todo. Até onde poderia ir, como filmar esse material tão explosivo? Esforço de guerra - Mas nunca desistiu. Encontrou um produtor amigo, Cedomir Kolar, que tinha a mesma visão do filme (e da vida) que ele. "Trem da Vida" custou US$ 7 milhões. Um filme caro para os padrões europeus. Baratíssimo comparado a Hollywood. "Rodamos na Romênia, se fizéssemos na França custaria US$ 20 milhões, em Hollywood não poderia ser feito por menos de US$ 50 milhões", observa o diretor.
Algumas cenas exigiram mais de mil extras, os deslocamentos do trem eram filmados por dois helicópteros, ele teve de usar muitas câmeras simultâneas. Um esforço realmente de guerra, mas Mihaileanou conseguiu convencer o produtor que o filme só seria lançado se saísse bom, se não fosse ofensivo. Ele trabalhou o tempo todo consciente da responsabilidade de tratar um grande tema. "Não queríamos nos envergonhar nem desculpar, se o filme saísse ruim, apesar de todo o dinheiro, íamos nos arruinar, mas ele jamais seria lançado".
Antes de ser diretor de cinema, Milhaileanou foi ator e diretor de teatro. Começou no teatro iídiche de Bucareste, representando os grandes autores judaicos. Com eles aprendeu um estilo peculiar de humor. Com eles e seus mestres cinematográficos - Charles Chaplin, Orson Welles, a quem chama de Shakespeare do cinema, Ernst Lubitsch, cuja comédia de guerra Ser ou não Ser o influenciou profundamente - desenvolveu uma visão do mundo e da arte.
O trem do seu filme não deixa de ser uma metáfora pessimista sobre o poder que corrompe o homem. Os falsos nazistas passam a comportar-se como nazistas. Mas, como diz Mihaileanou, nunca viram nazistas de verdade. Ele nunca quis cruzar esse limite. Quando começa a agir como comandante nazista
o chefe do trem é chamado bruscamente a reconhecer-se como judeu. Como Mihaileanou diz, não possui uma visão idealizada do homem. "Sou um militante da imperfeição, o homem é imperfeito, só é imperfeito porque é humano".
"Trem da Vida" foi feito sob esse signo. Um filme crítico, sobre os jogos de poder entre os homens, mas também caloroso e emocionante. Um filme responsável. Mihaileanou critica o que considera a irresponsabilidade de Benigni em "A Vida É Bela". Acha que o italiano elimina as fronteiras entre realidade e fantasia, enquanto ele permanece com os pés no real. Não aceita a cena em que Benigni, no filme, faz piada para o filho sobre o cartaz que anuncia, na fachada da loja, "Entrada proibida para cães e judeus". Acha que não se pode rir dessa maneira e considerar natural o racismo quando há tanta discriminação no mundo.
Confessa que não gosta de "A Vida É Bela", mas não lamenta o sucesso de Benigni. Seu filme foi bem na Itália, está indo bem na Alemanha, espera que vá em São Paulo. O próximo filme, que ele escreve atualmente, se chamará em inglês "Out of Wall". Uma história sobre um personagem no limiar da loucura. Mihaileanou adora os loucos mansos. O louquinho de seu filme, que ele queria que Benigni criasse, é genial. "Há uma loucura salutar que nos ajuda a compreender o homem".

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