Trekking na trilha da fuga
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domingo, 26 de julho de 1998
Agência Estado 
ReproduçãoRuínasO presídio Cândido Mendes, em Ilha Grande, foi implodido em 1994, mas os muros e algumas salas ficaram de pé
Descoberta em 1502 pelo navegador português André Gonçalves, Ilha Grande sempre deu motivos para afastar quem porventura pretendesse pisar em alguma de suas 106 belas e selvagens praias. Ao longo dos séculos, foi considerada um caminho sem volta. Sua ocupação começou como esconderijo de piratas franceses e ingleses, passou para ponto de venda de escravos, abrigou leprosos numa edificação chamada de Lazareto (as ruínas podem ser encontradas próximas da Praia Preta) e, a partir dos anos 40, reuniu num presídio de segurança máxima a fina flor da bandidagem e da intelectualidade que lutava contra a ditadura de Getúlio Vargas e, depois, contra o regime militar.
Personalidades tão díspares como Graciliano Ramos e Madame Satã, ou Fernando Gabeira e o inspirador do esquadrão da morte, Mariel Mariscot, amargaram por lá uma estadia forçada, bem como o lendário Lucio Flávio e o traficante Escadinha.
Até a desativação do presídio, demolido em 1994 por ordem do então governador Leonel Brizola, Ilha Grande sempre inspirou temor naqueles que a admiravam a 12 milhas de distância, na costa de Angra dos Reis, litoral fluminense, em torno da qual há cerca de 366 ilhas. Quem estava fora não queria entrar e quem vivia lá dentro estava doido para sair.
Tamanha ânsia por liberdade acabou beneficiando o turismo, hoje a principal atividade econômica de seus 5 mil moradores. O lucro maior ficou para a fatia do emergente ecoturismo na região. Isso porque, de tanto os prisioneiros buscarem o melhor local para a fuga da ilha e, consequentemente, de tanto os guardas do presídio procurarem os fugitivos, inúmeras trilhas acabaram se formando pelos 193 quilômetros quadrados da exuberante mata nativa de seu território.
De fato, andar a pé não é apenas a melhor coisa para se fazer em Ilha Grande. É praticamente a única, uma vez que os veículos automotores são proibidos de circular. As opções de caminhadas são diversas e cada qual tem seu grau de dificuldade. Algumas são fáceis e podem ser feitas, digamos, com um pé nas costas. Outras são curtas e você vai num pé e volta no outro. E é claro, não faltam as trilhas radicais, invocadas, cuja dificuldade deixa até os trekkers mais experientes com um pé atrás.
A maioria das trilhas leva a praias tão diferentes entre si que é possível escolher a caminhada pelo tipo de areia. Monazítica, na Praia Preta; grossa como cascalho, na Praia de Palmas; ou fininha como talco, na Praia Lopes Mendes. Também é possível optar pelo tipo de mar: tranquilo como uma piscina ou com ondas razoáveis para o surfe, pela infra-estrutura existente chuveiro com água doce, bares e restaurantes, aluguel de barcos e equipamentos para esportes náuticos ou simplesmente pela beleza do lugar, como, por exemplo, as Praias de Dois Rios e Cachadaço, esta última pequena, com cerca de dez metros, ladeada por costões de pedra por onde escorre um riacho que deságua num poço legal para um banho rápido.
Como as opções são muitas, fica difícil fazer uma lista das melhores, até porque todas elas valem a pena. Na verdade, o turista que gosta de botar o pé na estrada vai precisar de algumas idas até Ilha Grande para aproveitar todo o potencial disponível. Tomar pé da situação nas pousadas e agências locais e contratar um guia nativo para não enfiar o pé na jaca são providências mais do que necessárias. São, até, meio caminho andado para aproveitar ao máximo as trilhas que Ilha Grande tem de melhor.


