TRECHOS DO LIVRO
''A Gaia Ciência Literatura e Música Popular no Brasil'' (José Miguel Wisnik)
''...O movimento tropicalista dialogou, ao mesmo tempo que com Oswald de Andrade, e por afinidade com este, com a poesia concreta. Torquato Neto, que participou do tropicalismo como letrista, produziu uma poesia que circula entre a canção e o livro, o que acontecerá também com uma série de poetas surgidos nos anos 1970, como Wally Salomão, Paulo Leminski, Antonio Carlos de Brito, Alice Ruiz, Antonio Risério, sem falar em Jorge Mautner, que combinava efervescência filosófica e literária com canção popular há mais tempo, ou Antonio Cícero, poeta, letrista, filósofo.
Haroldo de Campos teve seu ''Circuladô de fulô'' e Augusto de Campos seu ''Pulsar'' musicados por Caetano Veloso. Arnaldo Antunes faz uma ponte entre a poesia concreta e o rock, desenvolvendo a partir daí uma poética muito pessoal que trabalha simultaneamente com poesia-livro, video e música. Se pensarmos também no fato de que a obra de Caetano Veloso dá a esse processo a sua visibilidade máxima, no fato de Chico Buarque ter escrito um importante romance, ''Estorvo'', e Julio Bressane ter feito um filme, ''Tabu'', sobre o encontro imaginário e prototípico de Oswald de Andrade com Lamartine Babo (autor de marchinhas de carnaval paródicas na década de 1940), podemos postular que constituiu-se no Brasil, efetivamente, uma nova forma da 'gaia ciência', isto é, um saber poético-musical que implica uma refinada educação sentimental...''.
''Quatro Triagens e uma Mistura: A Canção Brasileira no Século XX'' (Luiz Tatit)
''...Apelidada de axé music, essa sonoridade dividiu com a música sertaneja o espaço popular das mensagens respectivamente temáticas e passionais da década de 1990. Entre elas, e alimentada por traços de ambas, firmou-se o pagode (..). Para selecionar os formatos ideais de uma canção que produza sentimentos passionais (como a sertaneja), ou que estimule a dança e alimente o espetáculo para produção de imagens televisivas (como a axé e o pagode), os representantes das empresas fonográficas tiveram que eliminar qualquer complexidade harmônica ou rítmica de seus produtos. Isso provocou na crítica especializada geralmente representantes da elite popular uma indignação tão intensa que acabou lhe escapando a principal eliminação, esta sim histórica, desse projeto de consumo do mercado brasileiro de discos. Contrariando todas as previsões lançadas em décadas anteriores, nos anos 1990 as emissoras de rádio foram invadidas por músicas cantadas em português e a televisão passou a programar seus musicais com base nos jogos de cena que caracterizavam os então novos grupos de axé e pagode. Mas os críticos passaram a se manifestar como se essas músicas ''simplificadas'' estivessem usurpando o lugar da música brasileira 'de qualidade' quando, na verdade, estavam se apropriando do lugar de outras músicas ingualmente de consumo, em especial as norte-americanas, e isso teve uma ressonância em todas as demais faixas de penetração da canção nacional. O hábito com a sonoridade brasileira expandiu significativamente o mercado musical, abrindo espaço para uma heterogeneidade de gêneros e estilos jamais vista no país...''





