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Jack Kerouc
A face de Deus
''Era ele, Jack Kerouac, o anjo louco que implantou um coração na máquina de escrever, o cara que fez com que a cortês Lady Literatura mostrasse os seios e as coxas. Com Kerouac, o escritor deixou de ser o intelectual quatro olhos numa sala empoeirada rodeado de livros e papiros sagrados. O escritor era um cara que vivia intensamente e tinha experiências para contar, experiências muito mais emocionantes do que longas horas entediantes atrás de uma máquina de escrever. Homero voltava as ruas''.
Tom Waits e sua
máquina de ossos
''Tom Waits persegue nossos sonhos como um cachorro fiel segue nossos passos e vai recolhendo o que deixamos pelo caminho: aparelhos de barbear usados, copos de papel, lembranças, relógios sem ponteiros, garotas que apenas nos olham sem dizer nada, velhas fotografias, etc. E transformando todo esse material aparentemente banal em poesia cheia de sangue.
Só mesmo Tom Waits poderia transformar algo como ''bicicletas quebradas'' em poesia.: ''Bicicletas quebradas, velhas correntes rebentadas/guidons enferrujados lá fora na chuva/deveria haver um orfanato para estas coisas que ninguém mais quer.'' E Tom tem nos deixado desamparados sem a sua poesia, sem a sua voz que lembra a de um cachorro ferido ganindo de dor e frio no meio da chuva''.
O disco loucão do
Beatle Caretão
''Tá certo. Paul McCartney é um caretão. Sempre foi. Vivia polindo a medalhinha que ganhou da Rainha da Inglaterra, sempre fez umas musiquinhas adocicadas, fáceis de decorar e falando de amor e amor e amor. Tudo bem, Paul McCartney é um caretão. É fácil falar mal dele. É um prato cheio.
Paul é um caretão mas não é o vilão que muitos insistem em forjar nem Lennon Loucão é o anjo que quase todo mundo resolveu canonizar. Vamos ser justos. Paul Caretão só entrou na banda de Lennon Loucão porque Paul Caretão sabia cantar e muito bem, sabia tocar guitarra, coisa que Lennon Loucão não sabia pois a tocava como se fosse um banjo, e além de tudo Paul Caretão tinha pinta de Elvis Presley super rocker.
Paul Caretão quando fumou maconha a primeira vez (foi Dylan quem colocou na roda) pediu a Mal Evans, um de seus empresários que anotasse todas as babaquices que ele dissesse pois Paul Caretão achava que tudo o que estava falando era genial e devia ser guardado para a posteridade. Coisa de louco, sabem como é''.
Escreveu o testamento
e pulou da janela
''É preciso entender a solidão do cara abandonado em uma cama de hospital olhando pela janela. É preciso comentar a loucura e dissipar qualquer suspeita de um ato pensadamente alucinado. É preciso compreender Arnaldo Dias Baptista e sua tentativa de fuga após espremer todas as suas paixões em teclas de piano e sarcasmos amargurados.
Arnaldo é a única lenda viva do rock nacional, digo única, porque Raul já morreu. Arnaldo é um sobrevivente ilhado na Estrada da Graminha em um sítio em Juiz de Fora lendo gibis, escrevendo livros e brincando com seus amplificadores valvulados. E parece bem mais velho, mas o seu rosto ainda se trai quando sorri ou quando seus olhos brilham revelando uma insuspeitada lucidez.
Diz que Rita Lee o internou por cinco vezes. Aí ele não segurou mais. Em 82 se atirou do terceiro andar do Hospital do Servidor Público em São Paulo. Antes do salto, o mais brilhante dos Mutantes já havia gravado dois discos solos. Dois discos sublimes. Se Arnaldo não sobrevivesse, teria deixado um testamento digno para as futuras gerações se enternecerem e se emocionarem''.
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Elvis Presley
Elvis também é assim
''Fico achando que a gente devia fazer um trato. Vamos esquecer esse cara? Vamos esquecer o sujeito balofo entupido de barbitúricos e estirado no chão do banheiro da mansão de Graceland. Vamos esquecer o cara que ia adorar o Renato Russo cantando a Carta de São Paulo aos Corintios. Vamos esquecer a massa de 120 quilos cheio de tédio atirando em televisores e chorando ouvindo Charles Boyer declamar versos açucarados.
Vamos esquecer o palhaço fantasiado com aquela roupa espalhafatosamente brega e ridícula entretendo matronas de cabelos pintados de cor de rosa. Vamos esquecer que ele gravou Kiss me quick e Its now or Never. Vamos fazer de conta que o Coronel Tom Parker não existiu. Vamos fazer de conta que aquele cara que parecia com James Dean não dançou de reco nas mãos do Tio Sam. Vamos esquecer o sujeito moralista, puritano e dedo duro.
Vamos esquecer do bebezão voyeur e com complexo de Édipo. Fico achando que eu vou pegar o filme da vida desse cara e editar só com as cenas que eu quero, do jeito que eu quero. Aí eu fico achando que vai ficar assim. Na primeira cena, um garoto de costeletas e roupa preta desce de um caminhão e entra na Sun Records. A secretária Marion Keisler atende o rapaz. Ele quer gravar um disco pra dar de presente de aniversário para sua mãe. Por 4 dólares o rapaz que atendia por Elvis Presley gravou My Hapiness e That's When Your Heartaches Begin, duas baladas xaroposas.
Marion ficou levemente impressionada com o garoto, tanto que deixou um bilhete para Sam Philips, o dono da gravadora. Marion escreveu assim: ''Elvis Presley. Bom cantor de baladas. Segurar''. Sam, o sujeito que vivia procurando um branco que cantasse como um negro não segurou de imediato o garoto de costeletas, mas na primeira oportunidade o convidou para uma nova sessão de gravação''.

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