TRECHOS DO LIVRO ‘‘Fiquei pasma ao perceber quanta gente acredita que o crack é uma droga restrita à população de rua e às classes mais pobres. A galera que parte desse pressuposto acredita que seus amigos e familiares estão longe dos problemas da droga famosa por dizimar mendigos, prostitutas, pivetes...e enquanto é só com essas pessoas, fingem que o problema não existe. Aliás, muita gente prefere ver esses tipos de ‘‘lixos humanos’’ bem longe e, se possível, mortos. Mas não é por aí. Qualquer um pode ter acesso a todos os tipos de droga, legais ou ilegais. Playboys que entram nos becos e bocas à procura de maconha, haxixe ou cocaína (e isso acontece aos montes) não estão livres de se deparar com o crack. Um belo dia, quando o estoque de fumo tiver acabado ou os papelotes de cocaína não forem suficientes, as pedras entrarão no cardápio’’. ‘‘Sofremos uma verdadeira lavagem cerebral com os comerciais de cigarros e bebidas. A mensagem que nos passam é a seguinte: se eu fumar o cigarro Y, o sucesso será uma constante em minha vida, a irreverência será um de meus traços marcantes, o status e a beleza de levar um cigarro à boca farão pessoas lindas, maravilhosas, saudáveis, inteligentes e bem-sucedidas. E por aí vai. Logo depois batemos o olho em duas linhas dizendo que o Ministério da Saúde adverte que fumar é prejudicial à saúde, que o cigarro pode causar isso e aquilo. Traduzindo: O Ministério da Saúde adverte que fumar é prejudicial, mas quem se importa? As companhias investem grana suficiente para que você não resista às propagandas e nem veja as ‘‘advertências’’ do governo – que cumpriu seu papel de ‘‘avisar’’ as pessoas. Além do mais, danos à saúde não pesam muito perto dos sedutores prazeres oferecidos’’. ‘‘Se você tem algum conhecido com problemas com drogas, lembre-se de uma coisa: não dá para ajudar quem não quer ser ajudado, mas dá pra ajudar a pessoa a querer se ajudar. Um dependente químico abusa das drogas também por estar imerso em uma realidade que não lhe oferece perspectivas, que o rotula e o exclui. Ingerir, fumar, injetar e cheirar algum tipo de entorpecente é uma forma de sentir-se fora daquela realidade que incomoda e desagrada. O que vale neste caso é mostrar para o dependente que há um horizonte de coisas legais como teatro, música, dança e literatura, que também podem fazê-lo sentir prazer à medida em que ele descobre seu potencial e aumenta sua autoestima’’.