Trechos do livro
‘‘É agora bastante comum ver garotas de doze e treze anos mostradas em comerciais de televisão como objetos eróticos. Alguns adultos podem ter esquecido o tempo em que tal ato era considerado psicopático. Isto não quer dizer que até recentemente adultos do sexo masculino não cobiçassem meninas puberes. Cobiçavam, sim, mas a questão é que o desejo deles era um segredo cuidadosamente guardado, especialmente diante das próprias jovens. Como na Idade Média, brincar com os órgãos genitais das crianças pode tornar-se mais uma vez somente um divertimento indecente. Ou, se isso leva as coisas longe demais, talvez possamos dizer que o uso explícito, embora simbólico, de crianças como material para a satisfação das fantasias sexuais dos adultos já se tornou inteiramente aceitável’’.
‘‘Nossas crianças sabem tudo que qualquer pessoa sabe – de bom e de mau. Nada é misterioso, nada é atemorizante, nada é escondido das vistas do público. Na verdade, é uma observação bastante comum, preferida sobretudo pelos executivos da televisão quando são atacados, que apesar de qualquer outra coisa que se possa dizer do impacto da televisão sobre os jovens, as crianças de hoje são mais bem informadas do que qualquer outro grupo de jovens era antes. Mas o que significa serem as nossas crianças mais bem informadas? Que sabem o que os mais velhos sabem? Isso significa que se tornaram adultos ou, pelo menos, semelhantes aos adultos. Significa que ao ter acesso ao fruto, antes escondido da informação adulta, são expulsas do jardim da infância’’.
‘‘Como a mídia elétrica afasta a alfabetização para a periferia da cultura e toma seu lugar no centro, outras atitudes e outros traços de caráter passam a ser valorizados e começa a surgir uma nova e atenuada definição de idade adulta. É uma definição que não exclui as crianças e, portanto, o que resulta daí é uma nova configuração das etapas da vida. Na era da televisão existem três. Num extremo, os recém-nascidos; no outro, os senis. No meio, o que podemos chamar de adulto-criança. Na Idade Média o adulto-criança era uma condição normal, em grande parte porque, na falta de alfabetização, escolas e civilidade, não se exigia disciplina ou aprendizagem especial para ser um adulto. Por motivos parecidos, o adulto-criança está surgindo como normal em nossa própria cultura’’.