TRECHOS DE 'ON THE ROAD'
A rodoviária estava abarrotada. Gente de todo tipo estava esperando os ônibus ou simplesmente parados ali; havia vários índios que observavam tudo com olhares impassíveis. A garota desvencilhou-se da minha conversa fiada e se juntou ao marinheiro e à turma dele.
Slim estava cochilando num banco, sentei ali. Os pisos das estações rodoviárias são exatamente iguais pelo país inteiro, sempre recobertos de baganas e catarros, e eles provocam uma melancolia profunda que só mesmo as rodoviárias poderiam possuir. Por uns instantes não houve diferença entre estar aqui ou em Newark, a não ser pela extraordinária imensidão lá de fora, que eu tanto amava.
Lamentava a maneira com a qual eu tinha rompido a pureza de toda minha viagem, sem economizar nem um centavo, desperdiçando totalmente o tempo feito um bestalhão enrabichado por aquela garota estúpida e gastando minha grana toda. Isso me fez ficar furioso. Eu não dormia há tantas horas, cansei de me atormentar e de blasfemar e fui direto dormir, me ajeitando num banco com meu saco de lona como travesseiro e dormindo até as oito horas da manhã ao som de murmúrios oníricos e ruídos distantes da estação, entre centenas de pessoas passando.
As garotas desceram também e iniciamos a nossa grande noite empurrando o carro mais uma vez rua abaixo. Iúuupi! Vamos lá!, gritou Dean, e nos atiramos no banco de trás e lá fomos nós, ligados, para o pequeno Harlem da rua Folsom.
Mergulhamos na noite cálida e louca, ouvindo um sax-tenor incrível soprando o trajeto inteiro, fazendo ii-yha! ii-yah! ii-yah!, batíamos palmas ao ritmo do jazz e a rapaziada gritava vai, vai, vai!. Dean já estava correndo pela rua com seu dedo suspenso no ar, aos gritos: Toca, homem, toca! Um bando de negros em roupa de sábado à noite armou um burburinho na entrada da boate.
Era um saloon ordinário e empoeirado com um pequeno tablado no fundo servindo de palco, os rapazes se acotovelavam lá em cima, com os chapéus enfiados até a altura dos olhos, tocando jazz acima das cabeças da platéia, um lugar louco; mulheres muito doidas, desleixadas, circulavam com roupões de banho, garrafas rolando e chocando-se pelos becos. Nos fundos do bar, num corredor escuro além dos lavatórios destroçados, homens e mulheres em grupos se escoravam nas paredes e bebiam vinho barato, cuspindo sob as estrelas.
Ela deixou que eu tomasse banho e me barbeasse, e então me despedi e desci as escadas com os sacos de viagem e chamei um táxi-lotação de Frisco, que é uma espécie de táxi comum que tem rota fixa e que você pode apanhar em qualquer esquina e saltar onde bem entender, tudo por apenas alguns cents.
Você vai espremido junto com outros passageiros, como num ônibus, mas pode conversar e contar piadas, como se estivese num carro particular. Naquele último dia em Frisco, a Mission fervilhava com as obras da construção civil, crianças brincando, negros ruidosos voltando do trabalho para casa, poeira, excitação, murmúrio intenso e o zumbido vibrante daquela que é a cidade mais agitada da América e, sobre as cabeças, o céu azul e límpido e a alegria do fog marítimo que durante a noite sempre recobre a cidade para deixar todos famintos de comida e excitação.
Eu odiava a idéia de ter de ir embora: minha estadia tinha se prolongado por míseras 72 horas. Com Dean, o frenético, eu apenas cruzava o mundo sem jamais conhecê-lo. Ao entardecer, estávamos zunindo em direção a Sacramento outra vez rumo ao Leste.





