PAULO COELHO
Alguns acham que o senhor toma o lugar de escritores como Machado de Assis e Clarice Lispector, e outros vêem seu sucesso como algo passageiro.
Paulo Coelho - Minha literatura não tem nada a ver com a deles. Não somos concorrentes. Esta discussão me parece algo como o sexo dos anjos. Se o sujeito quer comprar Machado ou essa escritora ele fará isso, com ou sem Paulo Coelho. Acho que o sucesso incomoda demais as pessoas. Essas pessoas são dignas de piedade por carregar o sentimento da inveja, mas, já disse, a crítica não me interessa. Peço para você não insistir nisso.
JORGE AMADO
Muitas pessoas apontam uma possível contradição no fato de um ''comunista de carteirinha'', como o senhor foi, manter boas relações com Antonio Carlos Magalhães, tradicional político baiano.
Jorge Amado - Contradição? Por quê? O atraso dos intelectuais brasileiros faz com que eles considerem que amizade significa solidariedade política - outra tolice. Sou amigo de Antonio Carlos Magalhães, não sou seu correligionário. Estimo no ex-governador da Bahia, seu devotamento à cultura. Estimo, sobretudo, um ser humano de grandes qualidades pessoais.
JOÃO CABRAL DE MELO NETO
Existe espaço para o poeta neste fim de século?
João Cabral de Melo Neto - Ah, claro. A poesia é um tratamento especial da linguagem, e o homem ainda não inventou algo para substituí-la.
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Reprodução
Antonio Callado: ''Colocaria a eutanásia como um dos direiitos do cidadão''
ANTONIO CALLADO
Borges dizia que o paraíso deve ser algo parecido com uma biblioteca.
Antonio Callado - Não um paraíso, mas um refúgio, um mosteiro. Preferia mil vezes estar moço e andando pelo mundo afora, mas reler livros é um grande consolo. A única pena é você ter que chegar a uma idade tão avançada, limitadora. Não gosto da velhice nem um pouco.
Não é vaidade?
Callado - Não. É realmente o que retira de prazer na vida. Física e espirtitualmente. Um exemplo bem vulgar: gostava muito de beber. Um uísque, um vinho com determinada comida...Saio cada vez menos porque dá uma certa raiva ver as pessoas bebendo à minha frente. Além disso, o sexo... A vida animal da pessoa que a velhice vai diminuindo, acabando em certos casos. Acho que morrer aos 70 anos é algo razoável. Colocaria a eutanásia como um dos direitos do cidadão.
CARLOS HEITOR CONY
O sr. Afirmou que Brasil é o país do amanhã. As coisas são sempre adiadas. Quais os responsáveis?
Carlos Heitor Cony - O próprio brasileiro. A sombra das bananeiras do país tropical dá uma preguiça... Não há pressa. Enquanto os outros países têm uma noção muito grande do tempo, no Brasil há uma tendência a se adiar as coisas. É o país da grande véspera.
NÉLIDA PI¥ON
A senhora usa computador?
Nelida Piñon - Escrevo em papelinhos. Tenho um computador, mas não sei conviver com ele, e, o que é mais dramático, nos últimos anos abandonei minha máquina de escrever, que me acompanhava desde meus onze anos, e hoje escrevo à mão. Tornei-me uma copista medieval. Estou criando palimpsestos.
RAQUEL DE QUEIRÓZ
O jornalismo ajudou a sua literatura, ou recorreu a ele apenas como um meio de sobrevivência?
Raquel de Queiróz - Ao contrário. Sinto-me profissionalmente jornalista, afinal de contas desde os 18 anos nunca se passou uma semana sem que eu escrevesse para jornal. Os livros são esporádicos. Levo quinze, vinte anos sem escrever um. Considero-me jornalista profissional e romancista amadora.
LYGIA FAGUNDES TELLES
É comum ouvir que Clarice Lispector influenciou inevitavelmente todos os escritores do Brasil. Mas não vejo isto no seu caso. Essa não-influência foi algo intencional?
Lygia Fagundes Teles - Boa pergunta. No meu caso talvez seja altivez, soberba, mas o fato é que toda vez que eu gostava muito de um autor, que o achava importante, quando via que podia exercer influência sobre mim eu o abandonava. Tinha horror de me impregnar do outro. O tempo todo você está se impregnando através da pele, do ouvido, dos olhos... Fica perigosa tamanha devoção, que pode transtornar o seu estilo. Então descobri que tinha caminhos próprios e iria trilhá-los sem influências, impregnações. Queria essa liberdade. Devo dizer que no caso de Clarice, não havia esse perigo. Embora eu a admirasse, eu não sentia a paixão que tinha por um Thomas Mann ou Dostoiévski. Quando li ''Morte em Veneza'', ''Crime e Castigo'' e outros fiquei completamente transtornada, o que não aconteceu com Clarice. Não esquecer Machado de Assis.
LUIS FERNANDO VERÍSSIMO
Alguns desejam entrar na Academia. E o senhor?
Luís Fernando Veríssimo - Entrar para Academia?! De jeito nenhum. Tem muita gente lá que respeito, mas é uma coisa que não teria sentido nenhum.
Não há espaço lá para quem escreve textos de humor?
Veríssimo - Creio que sim. O João Ubaldo e outros escrevem com muito humor. Mas talvez o que falte à Academia seja exatamente humoristas.
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Arquivo Folha
Wilson Bueno: ''O escritor brasileiro é autocentrado demais... É uma briga de saltos''
WILSON BUENO
Quais os maiores pecados dos escritores?
Wilson Bueno - Diria que uma certa mesquinharia, fruto da autocensura. O escritor brasileiro é autocentrado demais. Vamos nos juntar, nos solidarizar mais! É uma briga de saltos. (...) É o Bruno Tolentino atacando Caetano Veloso... Não se pensa um projeto de cultura nacional; alguém está fazendo isso? O Oswald, o Mário de Andrade, o próprio Drummond, um homem encolhido, recolhido, fizeram! E nós? Onde, um Glauber Rocha?, que com toda a sua loucura egocentrada encarnava um projeto para a cultura brasileira. É impressionante que Caetano Veloso tenha de ocupar um lugar que de certa forma nem é dele. O século XX está terminando e nós ainda estamos digerindo a Semana de Arte Moderna de 1922! Nosso mercado editorial é ínfimo em relação à grandeza de criatividade que existe no país. No Brasil, tudo é gigante, sobretudo as nossas misérias. Não há um projeto para pensar essa diversidade.

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