Freedman DysonO senhor diz que quando a ciência alcança um poder igual ao da religião, torna-se cruel e pervertida também. A ciência chegou a este patamar neste século?
‘‘Mais na Primeira Guerra Mundial, entre 1914 e 1918, que foi a guerra dos químicos e da horrível campanha pelas armas químicas. Isso deu má reputação à ciência. Foi quando as pessoas começaram a se preocupar com os ‘demônios cientistas’. A Primeira Guerra Mundial foi dos químicos, e a Segunda, dos físicos. A física também se tornou impopular devido às bombas nucleares. Agora é a vez dos biólogos. Eles são responsáveis pelo próximo passo. Não há dúvida de que têm um enorme poder, mas não está claro como irão lidar com o problema da manipulação genética.
Roberto Salmeron
Como o senhor vê a educação científica do leigo no Brasil?
‘‘O que vejo é que, em todos os países, a cultura cientifícia é baixa. Nos Estados Unidos, por exemplo, a cultura científica do americano é baixa em relação ao nível da ciência. Na França, a mesma coisa. Mas, no Brasil, é muito mais baixa, porque já é consequência do nível cultural médio de nossa população. Quantas pessoas no Brasil têm o hábito da leitura? Pouquíssimas. Na França, as crianças são estimuladas a ler. Já há livros de história preparados para elas. Aqui no Brasil também há, mas é uma minoria que tem acesso. E a educação científica tem de começar na escola. Falar sobre ciência para o leigo é muito difícil. Einstein escreveu um livro que se chama ‘A Evolução da Física’. Lá ele expressa essa dificuldade de falar para o leigo: ‘Quando a gente quer fazer divulgação científica, deve-se sempre contar a verdade, mas não demais’. Isso significa que tem de escrever corretamente, mas, se você quiser entrar em detalhes demais, aí o leitor fica perdido. Então é difícil’’.
Hans Bethe
O senhor acha que foi importante construir a primeira bomba atômica antes dos nazistas?
‘‘Sim. Foi importante para terminar com a guerra. Especialmente porque salvou muitas vidas no Japão. Ela duraria por muitos meses se não houvesse o uso da bomba. Seria uma grande desgraça para o Japão se a guerra continuasse por mais tempo’’.
Richard Dawkins
Os governos fazem leis para proteger seus cidadãos contra produtos que dizem fazer mais do que fazem , mas toleram a pseudociência. No Brasil, por exemplo, nos últimos dias do ano astrólogos dizem o que espera o país no ano seguinte. Como o senhor vê essa incongruência?
‘‘Gostaria de ver o governo fazer isso. Podemos ver esse tipo de atitude ainda mais claramente com remédios. O fabricante não pode dizer que o remédio vai curar dor de cabeça a não ser que isso seja provado. Mas no caso de um remédio homeopático ou outro não-ortodoxo, o fabricante pode alegar qualquer coisa. É competição injusta, pois quando as pessoas vão à farmácia comprar pílulas para dor de cabeça, elas ficam frente a frente com dois tipos de pílulas. Gostaria de ver isso parar, de ver leis nas quais todos os remédios fossem submetidos aos mesmos procedimentos. Mas suspeito que os homeopáticos não passariam no teste duplo cego (em que se dá para metade de um grupo o medicamento a ser testado, enquanto a outra metade toma placebo, sem que nenhum dos grupos saiba quem tomou o quê).’’
Pierre-Giles de Gennes
Como o senhor vê o que tem sido falado sobre o efeito estufa (descongelamento das calotas polares e consequente submersão das regiões continentais de baixa altitude)?
‘‘Por um lado, estou convencido da importância de colocar dinheiro em pesquisas climáticas, porque problemas reais poderão vir no futuro. Entretanto, não acho que as previsões feitas hoje sejam confiáveis. As incertezas podem ser de vinte por cento e, para coisas que realmente importam, uma incerteza de um e meio por cento já afeta. É muito perigoso fazer previsões firmes sobre o futuro. Algumas vezes climatologistas são um pouco bobos, ansiosos para mostrar seu trabalho. Fico no meio do caminho. Não acho que devamos pôr muita ênfase na pesquisa atual, mas devemos dar dinheiro a eles para o futuro’’.
Newton da CostaQual a importância da busca do conhecimento, inclusive com o treinamento de novos cientistas, no desenvolvimento do país?
‘‘Acho que não é possível um país se desenvolver sem ciência. Napoleão já dizia que se mede o nível de um país pela qualidade de sua matemática. É óbvio que um país nunca será de Primeiro Mundo sem ciência pura e aplicada. Para que haja boas universidades e bons cientistas é necessário que as universidades brasileiras, no tocante à formação de profissionais, dêem um bom conhecimento científico geral e transmitam aos estudantes a idéia de que eles terão de passar o resto da vida melhorando seu conhecimento, fazendo-o avançar. Quando eu era jovem, uma pessoa formada em engenharia podia terminar o curso, vender seus livros e exercer a profissão. Hoje, isso não tem sentido. O engenheiro, o médico, o advogado têm de se aperfeiçoar constantemente. E só existe uma maneira de fazer isso: boas universidades, com corpo docente muito qualificado, e bons cientistas e institutos de pesquisa. Se o Brasil não desenvolver a ciência, está fadado a desaparecer do mapa’’.
Murray Gell-Mann
O senhor acredita que haja vida em outros planetas?
‘‘O número de planetas e estrelas no universo é extremamente grande e não há razão para pensar que os sistemas planetários não possam ter vida. Estamos descobrindo a existência de grandes planetas em outras galáxias, mas ainda não temos um método para detectar planetas pequenos como a Terra – embora existam muitos deles com certeza. E não há razão para acreditar que, dadas as condições físicas para a existência da vida, ela não surja ou que seja algo raro e difícil de acontecer. Talvez o que exista seja algo que se pareça com vida, mas não seja exatamente o que conhecemos. A pergunta seguinte é: ‘Quantos deles têm uma vida inteligente como a humana ou mais evoluída?’ Imagino que existam muitos, mas isso não quer dizer que estejam perto da Terra’’.
Martins Rees
Alguns críticos da ciência dizem que ela está no fim, existe até um livro sobre esse tema.
‘‘Ciência é uma aventura sem fim. Haverá sempre novos problemas. O desafio hoje é entender a física do início do universo, a complexidade que levou à formação das estrelas e das galáxias, como a vida evoluiu e chegou a algo complexo como nós, como as criaturas evoluíram e se tornaram conscientes e capazes de fazer todas essas perguntas. O sol ainda não chegou à metade da sua vida. Temos muito mais tempo à frente do que já tivemos no passado. Estamos ainda no começo’’.

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