Trechos de algumas entrevistas reunidas no livro ''Pais da TV''
ReproduçãoBoni:Excetuando-se a Globo, a televisão brasileira é, na realidade, primária em todos os seus conceitos
Boni
No começo, a televisão brasileira sobrevivia em cima de que pilares como empresa? Eram menos profissionais?
Excetuando-se a Rede Globo, a televisão brasileira é, na realidade, primária em todos os seus conceitos. Problemas internos, dificuldades financeiras, tendência a apelos popularescos e políticas comerciais superadas são obstáculos para que outras emissoras possam disputar com a Globo a liderança nacional. A Globo foi a pioneira na adoção de uma filosofia de programação. Vem mantendo e manterá a supremacia nesse e em outros campos da televisão brasileira.
Guel Arraes
A paixão do brasileiro pela TV tem a ver com a questão econômica, com a pobreza, o lazer gratuito para quem não pode pagar diversão?
Certamente tem a ver com isso, mas existem outros países com problemas socio-econômicos onde a televisão não exerce esse fascínio como acontece aqui, de forma hegemônica. Por outro lado, preocupa-me o fato de ser dificílimo fazer cinema no Brasil. Porque quem se aventura a realizá-lo tem de brigar contra uma série de desafios num país pobre. Um deles está no fato de que 99% da sede que o povo tem de dramaturgia já são saciados pela televisão. É um negócio muito louco e que precisa ser pensado.
Walter Avancini
O senhor acredita que a telenovela acaba deixando algum resquício de conscientização no telespectador?
Acredito, acredito. Tenho pelo menos dois exemplos claros disso. Um passado e outro menos passado. Lembro-me de Escalada (1975), de Lauro César Muniz, que discutia um assunto que era praticamente impossível de ser falado nesse país: o divórcio. O que Lauro percebeu foi que o coletivo estava pronto para discutir de forma madura essa questão, mas as autoridades não permitiram debatê-la. Principalmente as autoridades eclesiásticas. Escalada vulgarizou a discussão sobre o divórcio e, logo em seguida, dois anos depois, o Congresso aprovou uma lei legalizando esse tipo de separação. Outro exemplo, também distante, aconteceu com Bem-Amado, que sempre teve essa preocupação de tentar mostrar para pelo menos uma parte do público a ditadura que o país estava vivendo. Para isso, fixou-se numa pequena cidade que tinha só um cara mandando, fosse general ou não. Era uma maneira de a gente colocar um ruído no telespectador. Recentemente, Vale Tudo, de Gilberto Braga, fez uma reavaliação dessa coisa do levar vantagem em tudo. Claro que isso permanece em algumas camadas da população. Nós não temos só homens maus, mas que os homens maus são maioria não tenha a menor dúvida.
ReproduçãoArmando Nogueira:As pesquisas disseram que Collor venceu o debate. Ora, se ele venceu não precisava distorcer nada
Armando Nogueira
No debate de Lula e Collor (1989), o que realmente aconteceu?
Naquele episódio, fui marido enganado. Tenho certeza de que aquilo foi uma articulação de um subordinado meu (Alberico de Souza Cruz) com Collor. Acho que aquilo correu à margem da própria empresa e da minha orientação. Demos orientação aos subordinados para que reproduzissem no Jornal Nacional a versão da tarde (Jornal Hoje), coisa que não foi feita. Essa determinação foi desobedecida, obviamente à minha revelia. Se soubesse, não teria deixado, porque aquela edição, antes de mais nada, foi burramente feita. As pesquisas disseram que Collor venceu o debate. Ora, se ele venceu, não precisava distorcer nada. E onde houve uma evidente distorção? A certa altura, Collor disse que não tinha dinheiro para comprar um aparelho de som. Esse foi o gol contra do Collor, omitido desnecessariamente da matéria. Seria como se o Flamengo vencesse o Vasco por 2 a 1 e só fossem mostrados os gols do Flamengo. O Vasco perdeu, mas não tem por que não mostrar seu gol.
Arquivo FolhaDias Gomes:Durante a exibição da minissérie O Pagador de Promessas a Globo foi obrigada a cortar quatro capítulos
Dias Gomes
A novela O Rei do Gado abordou o problema crônico da reforma agrária, dando para o público informações sobre a questão. O caminho para que a novela dê sua contribuição social e política, que sempre apareceu em suas novelas, pode ser por aí?
Pode. Pode e dessa forma consegue mexer com as pessoas. Posso dar um exemplo pessoal dessa mudança de mentalidade. Quando adaptei minha peça O Pagador de Promessas para a televisão, em 1987, eu precisava estender a história para adequar ao número de capítulos e optei por mostrar as origens do protagonista, Zé do Burro. E fui buscar esse universo no interior da Bahia, disso para definição do personagem central, tive de abordar o problema das disputas de terra. E assim foi feito. Só que, quando chegou o momento da exibição, depois do segundo capítulo, Ronaldo Caiado (na época, presidente da União Democrática Ruralista UDR) reagiu junto com os banqueiros, tendo toda a publicidade dos bancos se a Globo não tirasse a minissérie do ar. Isso provocou uma confusão tremenda na emissora. Depois de uma tensa negociação, a Globo foi obrigada a cortar quatro capítulos.
Nilton Travesso
O que mais lhe causou problemas na censura?
Foi o lançamento dessa geração de cantores Secos & Molhados, Simone, Ednardo por volta de 1973. Eles apareciam no Mixturação, um programa do Walter Silva que eu dirigia. Para os Secos & Molhados se firmarem tivemos muitos problemas com a censura. Acredito que Ney nem sabe o quanto tivemos de dor de cabeça com o grupo dele. Acompanhávamos as tendências da revolução sexual da contracultura e a censura não acreditava que estávamos colocando aquele tipo de programa no ar. Foi uma loucura.
Max Nunes
O humor poderia ser uma alternativa à discutida queda na qualidade da programação?
Exatamente. E lhe digo mais: a baixaria que está aí ainda vai piorar muito porque as classes D e E assistem muito a esses programas e os anunciantes vão optar por essa programação. Nenhuma fábrica de piano vai ficar anunciando em Ratinho, não é?





