TRECHOS DE '31 CANCÕES'
''I'm Like a Bird
(Nelly Furtado)
''...Talvez a descartabilidade seja um sinal da maturidade da música pop, um reconhecimento de suas próprias limitações, em vez do contrário. Seja como for, um dia desses eu estava sentado na sala de espera de um médico, quando, de repente, quanto garotinhas afro-caribenhas que aguardavam pacientemente enquanto sua mãe consultava engataram na canção de Nelly Furtado. Elas sabiam a letra com exatidão, faziam uns passos de dança e cantavam com enorme entusiasmo e prazer e gostei de que tivéssemos algo em comum temporariamente; senti como se todos nós vivêssemos no mesmo mundo e isso não é algo que aconteça com muita frequência....''
''Hertbreaker''
(Led Zeppelin)
''...Em algum momento dos últimos anos, descobri que minha dieta musical estava light nos carboidratos e que os riffs do rock são essenciais para a nutrição especialmente a bordo de um carro ou em uma turnê de divulgação de um livro, quando se precisa de algo rápido e rasteiro para encarar um longo dia. Nirvana, The Bends (Radiohead) e The Chemical Brothers reestimularam meu apetite, mas só o Led Zeppelin conseguiu satisfazê-lo; na verdade, se um dia eu tivesse que cantarolar um riff de blues-metal para um alienígena perplexo, eu escolheria o de ''Hertbreaker', do álbum Led Zeppelin II...''
''Pissing in a River''
(Patti Smith Group)
''...Não pude lembrar de ter ouvido 'Pissing in a River' antes e, se ouvi, não me causou nenhuma impressão. Naquela noite, entretanto, quando Smith atingiu o eletrizante clímax declamatório da canção 'Everything I've done, I've done for you / Oh, I'd give my life for you' (Tudo o que fiz, fiz para você / Oh, eu daria minha vida por você) balançando na luz azul, com o púlpito da igreja e os lindos vitrais atrás dela, dava para sentir a platéia inteira apaixonando-se por ela, pela canção e pela noite. Foi um daqueles raros momentos milagrosos milagrosos, no contexto de um show de rock que o deixam grato pela música que você conhece, pela música que você ainda tem que ouvir, pelos livros que leu e vai ler, talvez até pela vida que você vive...''
''Mama You Been on My Mind''
(Rod Stewart)
''...E ele foi primeiro cantor a me mostrar que havia uma arte para a interpretação: suas melhores canções são invariavelmente covers e eu sempre presumi (eu era esnobe em música mesmo antes de entender qualquer coisa) que covers eram de algum modo inautênticos e inescapavelmente inferiores que apenas os originais importavam realmente. Mas, quando conferi os originais, descobri, para meu espanto, que ele muitas vezes os havia aperfeiçoado. Obviamente ele não era melhor cantor do que Sam Cooke, mas a gravação de Stewart de 'Bring It On Home To Me' tinha uma aspereza e um suingue que eu não conseguia ouvir na versão de Cooke e a 'Mama You Been On My Mind' de Dylan não me parece muito mais do que uma cantoria desafinada. A evidente paixão de Stewart pela canção a resgata ou pelo menos lança luz sobre ela: enquanto Dylan quase a desperdiça, a veneração de Stewart parece dignificá-la, investí-la com uma qualidade épica que Dylan lhe recusa. Hoje, provavelmente, gosto igualmente de ambas as versões, mas, se não fosse Stewart, eu jamais teria sido capaz de sacar que havia alguma coisa ali''...





