Trecho incial do Sermão da Quarta-feira de Cinzas de 1672
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 17 de julho de 1997
Padre Antonio Vieira 
Duas coisas prega hoje a Igreja a todos os mortais: ambas grandes, ambas tristes, ambas temerosas, ambas certas. Mas uma de tal maneira certa e evidente, que não é necessário entendimento para a crer; outra de tal maneira certa e dificultosa, que nenhum entendimento basta para alcançar. Uma é presente, outra futura: mas a futura vêem-nas os olhos; a presente não a alcança o entendimento. E que duas coisas enigmáticas são estas? Pulvis es, et in pulverem reverteris. Sois pó, e em pó vos haveis de converter. Sois pó, é a presente: em pó vos haveis de converter é a futura. O pó futuro, o pó em que nos havemos de converter, vêem-nos os olhos: o pó presente, o pó que somos, nem os olhos o vêem, nem o entendimento o alcança. Que me diga a Igreja que hei de ser pó: In pulverem reverteris, não é necessário fé nem entendimento para o crer. Naquelas sepulturas, ou abertas, ou cerradas, o estão vendo os olhos. Que dizem aquelas letras? Que cobrem aquelas pedras? As letras dizem pó, as pedras cobrem pó, e tudo o que ali há, e o nada que havemos de ser: tudo pó. Vamos, para maior exemplo, e maior horror, a esses sepulcros recentes do Vaticano. Se perguntardes de quem são pó aquelas cinzas, responder-vos-ão os epitáfios (que só as distinguem): Aquele pó foi Urbano, aquele pó foi Inocêncio, aquele pó foi Alexandre, este que ainda não está de todo desfeito, foi Clemente. (...) Mas que me diga, e me pregue hoje a mesma Igreja, regra da fé e da verdade, que não só hei de ser pó de futuro, senão que já sou pó de presente: Pulvis es? (...) É possível que estes olhos que vêem, estes ouvidos que ouvem, esta língua que fala, estas mãos e estes braços que se movem, estes pés que andam e pisam, tudo isto já hoje é pó: Pulvis es? (...) Nenhuma coisa nos podia estar melhor, que não ter resposta nem solução esta dúvida. Mas a resposta e a solução dela será a matéria do nosso discurso. Para que eu acerte a declarar esta dificultosa verdade, e todos nós nos saibamos aproveitar deste, tão importante desengano, peçamos aquela Senhora que foi exceção deste pó, se digne de nos alcançar graça. Ave Maria.
Pregado em Roma, na igreja de Santo Antonio dos Portugueses.


