''Quando os Beatles se separaram comecei a sentir os efeitos da abstinência do vício e para curar o cold turkey me mudei para casa do inimigo dizendo a mim mesma: welcome the Rolling Stones! De vingança pela traição dos quatro terem se casado com outras que não eu, recolhi toda a minha beatlerabilia num baú e estoquei na garagem de casa.
Só iria desenterrar de lá quando acabasse aquela palhaçada e tudo voltasse ao normal. Devo ter ficado uns dez anos de mal dos Beatles, entre a época das Cilibrinas do Eden e Tutti Frutti. Confesso que fiz esculhambações públicas dizendo que preferia o lado bad boys dos Stones, a teatralidade de Bowie e a porraloucura de Iggy Pop.
Me recusei a botar Beatles na vitrola (vitrola!) até para meus dois filhos mais velhos. Eu parecia aquelas vedetes pecadoras que um dia viram evangélicas e saem pregando contra as armadilhas do fogo do inferno. Em agosto de 80 faleceu minha irmã Mary Lee, a mesma que havia me apresentado aos caras. Em dezembro do mesmo ano lá se foi Lennon.
Naquela noite tive uma overdose braba de Beatles, desenterrei o baú da garagem e chorei tudo o que tinha direito. Aos poucos comecei a incluir algumas músicas deles nos meus shows...''

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