TRECHO DO LIVRO
Ói eu aqui de novo com coluna diária em jornal. Me pergunto a toda hora, desde que recebi o convite para trabalhar nos Associados: será que minha volta é consequência da abertura? E eu mesmo, que tenho mil e um anos de janela e várias solas de sapato gastas nas andanças pelo quarteirão onde aprendi a abrir os olhos, me respondo: Não houve abertura nenhuma.
Na verdade não se abriu nen uma fresta. Falam em abertura, porém (e sempre tem um porém) os fatos negam categoricamente que tenha havido qualquer abertura. Apreenderam o jornal Movimento sem nenhuma explicação. Não deixaram o genial educador brasileiro Paulo Freire entrar no Brasil para uma conferência em Campinas. Impediram a saída do brilhante Darci Ribeiro do Brasil. Prenderam outra vez o Cajá lá em Pernambuco. Facilitaram a entrada da polícia uruguaia em território brasileiro para raptar uruguaios aqui residentes.
E tem mais. Mas acho que esses fatos que relacionei aqui bastam para provar que não houve nenhuma abertura. A insegurança de nós, brasileiros, continua a mesma. Então, por que, depois de tanto tempo marginalizado, sou chamado a escrever coluna diária?
Fragmento de Crônica sem título, publicada no Diário da Noite em 11/12/1978, incluída no livro A Crônica dos que não têm voz.





