(...) – Fui na missa em Mococa, depois que entreguei o leite. Tinha uns hôme e muié ainda com a cara rebocada e os cabelos e as rôpa cheio de papelzinho. Mais isso num é nada. Quase qui eu morro di susto, Vermêio.
– Na missa?
– Na missa. Neuzinha tava lá. O vestido vermêio aberto dos lado; a fita, a rosa no cabelo. Tava no primêro banco detráis, as coxa meio de fora. Tão bonita, cheguei a senti o chêro dela. Cherava perfume e suor...
Vermelho engasgou, de pena. Gostava de brincar com a paixão de Caéba, mas naquela hora não tinha vontade. Resolveu esclarecer as coisas, acabar com a ilusão do amigo. Cortou, sem anestesia:
– Caéba, tá na hora de acordar. Ocê num vê que Neuzinha é um sonho, sô? Apontou com o ‘‘fura-bolo’’ o cartaz na parede caiada:
– Essa Neuzinha é só uma estampa de reclame; reclame de cachaça. Num existe não.
– Ela tava na missa...
– Tava ôtra moça, não vê? Era carnaval. O povo se veste de fantasia, imita paiáço, gente do tempo antigo, gente famosa de hoje. E quem é mais famosa nessa banda que a cachaça Neuzinha?
(Trecho da crônica Neuzinha, meu Amor)

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