''Olhando para o céu noturno, contando seus filhos. Coitada da mamãe arruinada. Na chuva, no granizo, no calor, ela sentada nos degraus. Dava as costas para as casas atrás de nós e olhava para a noite que acalmava. Atrás dela, a umidade, as paredes descascadas, a madeira estragada, o ar úmido, os forros esburacados, despencando. O papel de parede apodrecendo, poças de água parada, ratos farejando o leite de bebê. Enxame de moscas nas paredes molhadas, ruindo. A tifóide e outras mortes em cada arfada, em cada superfície. Corrimões que balançavam ao toque, assoalhos que gemiam e grasnavam, madeira à espera da mínima fagulha. Não havia descanso, um lugar onde ela pudesse deitar e esquecer. Gritos e brigas, ódio e tosse, a tosse a morte pairando cada vez mais perto. E os cômodos atrás dos degraus ficavam cada vez menores e mais escuros e mais vis. Caíamos cada vez mais. As paredes desmoronavam e fechavam o cerco sobre nós. Seus bebês morriam e se juntavam às estrelas. Cômodos sem janelas, chão do qual brotavam baratas. Chorávamos ao sentir o cheiro da comida nojenta dos outros. Chorávamos com a dor que queimava nossas feridas. Chorávamos por braços que nos protegessem. Chorávamos por calor e por meias, por leite, por luz, por um fim à coceira que não nos deixava dormir de noite. Chorávamos por causa do piolhos que brilhavam e se aninhavam, zombando de nós. Chorávamos para que nossa mãe viesse nos salvar. A coitada da mamãe. Finalmente, finalmente, fomos arrastados para nosso último cômodo, um subsolo, o mais baixo a que podíamos afundar, um buraco que bocejou e nos engoliu. Deitávamos para dormir no chão alagado com água do rio Liffey, dormíamos amontoados com as lesmas e os vermes do esgoto. Mamãe sentava nos degraus em ruínas, virando as costas para os fatos suados e horrendos de sua vida, e olhava, através da fumaça mordaz, para as estrelas que cintilavam no céu dublinense.''

mockup