‘‘Medo de escuro. A meada começa pela forma da dúvida: a lâmpada está apagada ou a lâmpada não está acesa?, dramaticamente o que é melhor para a situação da lâmpada?, tendo escolher o melhor para a lâmpada por medo de magoar a lâmpada?, uma lâmpada que nem ao menos é vista porque está apagada ou não está acesa, é possível magoar uma lâmpada assim?, é possível magoar objetos?, mais: é possível magoar objetos invisíveis?, até mais ainda: a meada continua e passa por uma nova dúvida: se a lâmpada está apagada ou não está acesa, a lâmpada está invisível: como saber se existe a lâmpada?, tateá-la, checar com a mão o contorno e reconhecê-la, mas como encontrar a lâmpada do escuro?, e o medo de tateá-la com excessiva força e quebrá-la, então tatear o interruptor, menos sensível que a lâmpada, mas o interruptor onde está?, mesmo que seja encontrado poderá não denunciar a lâmpada se ela não estiver apenas apagada ou somente não-acesa, se a lâmpada estiver queimada: bem está escuro ou não há luz, a forma da dúvida não deixa dúvida: não se vê, há espaço para o medo como na sopa há espaço para o fio de cabelo, ou: falta energia elétrica em toda região, subitamente a luz retornará sem necessidade de trocar a lâmpada ou acionar o interruptor, subitamente é advérbio de medo, subitamente: extraviou-se o fio da meada, a luz não voltou, não há energia, não há trilha sonora, não há imagem, o cinema está escuro mas não é o escuro da sessão de cinema, (...)
(Trecho do livro ‘‘Pescoço Ladeado por Parafusos’’ de Manoel Carlos Karam, editora Ciência do Acidente)

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