Trecho do livro
O litoral e as praias do Brasil têm algo a acrescentar à história mundial da canábis. Nas águas brasileiras, o navio Solano Lopez, em 1988, descarregou 20 mil latas de maconha prensada, ao se sentir perseguido pela polícia. A maconha vinha da Austrália, e seu destino final era os Estados Unidos. As latas, cada uma contendo 1,3 quilo de maconha prensada, se espalharam por vários estados e chegaram a Ipanema.
Celebrou-se ali o que se convencionou chamar o Verão da Lata. A expressão da lata tornou-se sinônimo de boa qualidade e foi título de um CD da cantora Fernanda Abreu. Em 1966, os frequentadores da praia de Ipanema realizaram uma das mais originais manifestações pela legalização da canábis. Habituados a fumar em algumas áreas, foram surpreendidos pela polícia, que queria prender usuários.
Para se defender da aproximação dos policiais, comunicando sua chegada, usaram apitos. Celebrou-se então o Verão do Apito. Do ponto de vista científico, a visão brasileira vem se tornando mais sofisticada. Do ponto de vista político, o aumento de informações disponíveis, com o advento da informática, passa a ser um importante trunfo para os que querem ampliar a discussão.
Esse intercâmbio acabará ajudando também a destacar o que é próprio na história da canábis no Brasil. O papel social que a planta desempenhou na escravidão, contribuindo para a afirmação da identidade das nações africanas; sua emergência na selva amazônica como planta utilizada em rituais religiosos com o nome santa-maria; sua presença em alguns grupos de lavradores maranhenses que a fumam no final da tarde como os ingleses tomam seu chá tudo isso são indicações que podem levar o foco da discussão para muito antes dos anos 60 e fazer desse um tema que vai bem além dos interesses da classe média, como habitualmente se costuma tratar a maconha na maioria dos veículos de informação.





