‘‘O dia em que o meu tio Roseno montou o zaino Brioso e tocou de volta para Ribeirão do Pinhal, ainda não era o dia em que eu nasci, aquele treze de março de mil novecentos e quarenta e nove, e nem havia chegado a hora da quinta tentativa da mulher, Doroí, de dar à luz um filho que legitimasse o entranhado amor que nutria, bugra esquiza e de olhos azuis, por este meu tio tocador de sanfona e capadeiro de galo, aquele tempo antes da Guerra do Paranavaí.
E aí então que foi o primeiro céu - o meu tio Roseno, também Roseéno, Ros, Roseveno, Roselno, o meu tio Rosano, distante cinquenta léguas e meia de Ribeirão do Pinhal, e a menos de um quilômetro do rancho que acabara de deixar no entroncamento do Breu com o Laranjinha, para lá de Guairá, onde, com o negro xucro Tionsim, cultivava uma roça de milho, extenso maizal, aí então que foi o primeiro céu. Veio vindo assim nem que o ouro desmaiado de um baio, a luz do sol que se põe numa vertigem de entardecer fulvo, longe as montanhas azuis. Roseno, meu tio, a primeira coisa que pensou, a trote lento na quase maciez do zaino, foi num segredo: o da cigana que lhe dissera, com rude presteza, e cru mistério, que, desta vez, Doroí ia lhe dar um filho, uma filha, por ser mais certo, e que chegasse a tempo para batizar a menina com o nome de Andradazil. Andando baixo este primeiro céu, meu tio, Roseno, dizia repetidas vezes o nome, Andradazil, Andradazil, escandindo-o ao trote calmo do zaino, para gravá-lo mais e melhor. Andradazil. Nome esquisito, e necessário, segundo a cigana, para que Andradazil forjasse no barro daqueles ermos a sua índole de cão.
Isto a cigana não disse mas era como se dissesse, do modo e jeito como decifrava meu tio Roseno aquela profecia, agora que rumo a Ribeirão do Pinhal, e a Doroí, seu amor bugro retinto, ao manso dos olhos dela, azul, pudesse segurar nos seus braços de homem aquele toco de gente marcado para crivar de bala toda a Guerra do Paranavaí, muitos anos depois deste céu que ora embala e sossega, melhor ainda agora ao trote ronceiro de Brioso, cavalinho bom, comprado na feira de Araré, um dia de cachaça, sanfona e capação de galo, um dia adventício. Desnecessário pressa - só daqui a cinquenta léguas e meia é Ribeirão do Pinhal. Não longe o Aquidaban-Nigui, ouro-barro, memorioso, que passa na beira do túmulo de López, proximidades do rancho de um compadre Diegue, tapera ornada de flor. Com o entardecer que faz sobre a cabeça, mais um motivo para compreender tudo, e o que este céu tem para dizer, agora que imensas as nuvens se estiram, dourado-velhas, chumaços coral e âmbar, aqui e ali desmaiando num quase lilás ou ascendendo às tintas de roxo supremo, transgressor. Meu tio Rosalvo, sobre o brioso Zaino, sabe, decidido, o que de légua e caminho. Passam por ele e seu cavalo, trazidos pelo vento, estonteantes, o cheiro do capim-mimoso e o rascante perfume da amorinha silvestre quando em brotação de flor, e tudo é o céu deste janeiro, lembra meu tio Roseno, ainda que não tenha muita certeza se já foi Natal. Um céu que é quase veludo, pudesse a gente tocar o azul que ora se faz cada vez mais intenso, derivando para tinto negrume salpicado de estrelas; safira, o céu, este primeiro céu sob o qual o meu tio Roselvo pensa, e ao trote brando de Brioso, perscruta e percorre os destinos de toda a Andradazil.’’

mockup