Trecho do livro
Trecho do livro
Você Está Perdendo a Cabeça, Viskovitz
Como era o papai?, perguntei à minha mãe.
Crocante, um pouco salgado, rico em fibras.
Antes que você o comesse, quero dizer.
Era um sujeitinho inseguro, ansioso, neurótico, mas ou menos como vocês todos, os machinhos, Visko.
Mais do que nunca, eu me sentia próximo daquele genitor que não conhecera, que havia se dissolvido no estômago de mamãe enquanto eu era concebido. De quem não tinha recebido calor, mas calorias. Obrigado, papai, pensei. Sei o que significa, para um louva-a-deus, sacrificar-se pela família.
Recolhi-me um instante diante do seu túmulo, isto é, diante da minha mãe, e recitei um miserere.
Logo depois, como pensar na morte nunca deixava de me provocar um ereção, achei que era o momento de ir ao encontro de Liuba, o inseto a quem namorava. Eu a conhecera cerca de um mês antes, no casamento da minha irmã, que também foi ao funeral do meu cunhado, e me tornara prisioneiro da sua beleza cruel. Desde então continuamos a nos ver. Como fora possível? Deus tinha me abençoado com o dom mais caro a nós, louva-a-adeus: a ejaculação precoce, condição necessária para qualquer história de amor não efêmera. Na primeira semana, só perdi um par de patas, as raptatórias; na segunda, o prototórax com os anexos para o vôo; na terceira...
Não faça isso, Visko, pelo amor dos céus!, gritaram os meus amigos Zucotic, Petrovic e Lopez, empoleirados nos ramos mais altos. Para eles, a fêmea era o demônio; a misoginia, uma missão. Eram sexualmente desviados ou disfuncionais desde a metamorfose, tinham feito os votos do sacerdócio e passavam todo o santo dia mastigando pétalas e recitando salmos. Eram muito religiosos.
Mas não havia reza capaz de me deter, logo agora que eu ouvia o gélido suspiro da minha bela, o grave murmúrio das suas membranas, o seu fúnebre sorriso escarnecedor. Movi-me freneticamente em sua direção àqueles sons, com a única pata que tinha sobrado, escorando-me na minha ereção, esforçando-me para imaginar as suas formas gloriosas, agora que não podia vê-las porque não tinha mais ocelos, agora que não podia sentir seu cheiro porque não tinha mais antenas, agora que não podia beijá-la porque não tinha mais palpos.
Por ela eu tinha perdido a cabeça.
(Conto de Alessando Boffa que integra o livro Você é Um Animal, Viskovitz lançado pela Editora Companhia das Letras)





